Gaja surpreende o mundo do vinho com investimento em brancos de guarda no Piemonte
Gaja investe em vinhos brancos de guarda no Piemonte

Gaja surpreende o mundo do vinho com investimento em brancos de guarda no Piemonte

A lendária família Gaja, sinônimo de tintos Nebbiolo e Barbaresco que elevaram o Piemonte ao Olimpo do vinho mundial, está escrevendo um novo capítulo em sua saga. Surpreendentemente, o tom mudou para branco, com um projeto ousado na Alta Langa, Itália, que promete redefinir o futuro da viticultura italiana.

Uma revolução branca liderada por Angelo e Giovanni Gaja

Por décadas, falar em Gaja era quase sinônimo de vinhos tintos lendários, graças à visão revolucionária de Angelo Gaja, considerado um gênio por críticos como Robert Parker. Agora, a família, liderada por Angelo e seu filho Giovanni, de 33 anos, está investindo pesado na produção de vinhos brancos de guarda, uma iniciativa que soa como heresia para tradicionalistas, mas reflete sua audácia visionária.

O projeto ocorre em Alta Langa, uma área a 650 metros de altitude e 15 quilômetros de Barbaresco, caracterizada por clima frio, biodiversidade e temperaturas até 4 °C mais baixas no verão. Em meio a bosques de avelãs e castanheiras, a família inaugurou uma vinícola sem nome próprio, dedicada exclusivamente a brancos, após limpar os bosques e deixar o solo descansar por três anos.

Adaptação climática e novas tendências de consumo

Com 90% dos 30 hectares plantados com Chardonnay e Sauvignon Blanc, e 10% com uvas em teste como Pinot Bianco e Riesling, o objetivo é criar vinhos brancos com identidade, profundidade e capacidade de evolução comparáveis ao Nebbiolo. Giovanni Gaja explica que as uvas brancas sofrem menos com o aquecimento global, pois não absorvem tanto calor quanto as tintas, preservando acidez e frescor.

Além da adaptação climática, a família está de olho em mudanças comportamentais. Giovanni menciona que, em mercados como a Ásia, mulheres lideram o consumo e preferem vinhos brancos, indicando uma migração global no paladar. Isso torna a aposta não apenas uma moda, mas uma estratégia de longo prazo para antever ondas de consumo.

Degustação e impacto no mercado

Em uma degustação exclusiva na nova vinícola, totalmente subterrânea e com salas de prova inauguradas em setembro do ano passado, Giovanni apresentou vinhos ainda não finalizados, que chegarão ao mercado em 3 a 4 anos. Os brancos da Alta Langa mostram acidez vibrante e frescor cortante, contrastando com os mais volumosos de Barbaresco, em uma aula prática de terroir.

A produção anual planejada é de 250 mil garrafas, com o Brasil comprando 2% a 3% da produção atual, considerado um mercado importante em expansão. Rótulos como Gaja Gaia & Rey Langhe Chardonnay 2021, disponíveis no Brasil, custam cerca de 1.200 reais, enquanto tintos raros podem ultrapassar 10.000 reais.

Legado histórico e visão futura

A ironia histórica é marcante: a família começou com uma trattoria em 1859, onde o vinho superou a comida, levando ao fechamento do restaurante e ao nascimento da vinícola. Hoje, mais de 160 anos depois, Gaja está ensinando o Piemonte a levar vinho branco a sério. Se o século XX provou que Nebbiolo podia rivalizar com os grandes Borgonhas, o século XXI pode ser lembrado como a era em que Gaja mostrou que o futuro do Piemonte é branco.

Com Angelo Gaja, aos 85 anos, ainda ativo e visionário, este projeto representa mais um legado para as gerações futuras, prometendo balançar o mercado mundial de vinhos e reafirmar a posição da família como pioneira na viticultura italiana.