Lichia: a rara fruta milenar que desafia o clima e encanta o Ano-Novo
A história e os segredos da exótica e rara lichia

A lichia, uma fruta de origem milenar na China, permanece como um símbolo de luxo, resiliência e doçura passageira. Sua jornada até as mesas, especialmente nas comemorações de Ano-Novo, é marcada por desafios climáticos extremos e uma cadeia de produção delicada, fatores que consolidam seu status de iguaria cobiçada e efêmera.

O caminho desafiador da produção

Ver um caminhão com a placa "lichia produzindo" é sinal de um feito agrícola notável. Para uma lichieira começar a frutificar, é necessário um longo e específico processo. A árvore exige um inverno com frio moderado para desencadear a floração. Na sequência, precisa de calor e umidade na primavera para que os frutos se desenvolvam.

Qualquer desvio nesse ciclo ideal compromete toda a safra. Invernos muito quentes impedem a floração. Chuvas fora de época na primavera fazem as flores caírem. Verões secos interrompem o crescimento dos frutos. Essa sensibilidade extrema torna a produção sempre difícil e as colheitas, mesmo com tecnologia moderna, são naturalmente irregulares.

Da China ancestral às mesas brasileiras

A história da lichia começa há mais de 3.000 anos no sul da China, onde já se colhiam variedades silvestres. Com o tempo, agricultores aprenderam a selecionar as melhores árvores e a reproduzi-las por mergulhia, uma forma de clonagem vegetal. As sementes, grandes e brilhantes, não são eficientes para cultivo, pois podem levar mais de uma década para gerar uma árvore frutífera, que ainda assim produz frutos imprevisíveis em qualidade e sabor.

A China desenvolveu dezenas de variedades tradicionais, famosas por seu aroma intenso, polpa clara e sabor delicado. No entanto, essas frutas têm casca fina e textura frágil, escurecendo rapidamente após a colheita e não suportando transporte longo. As melhores lichias chinesas ainda são uma delícia de consumo local e breve duração.

A globalização da lichia começou no século XIX. Para sobreviver a travessias oceânicas, foram selecionadas variedades mais resistentes, de casca mais grossa e polpa menos sensível. São esses cultivares que se adaptaram ao Sudeste do Brasil. Produzem frutos bonitos, suculentos e doces, mas com um perfume muito mais discreto se comparado às lichias originais da China.

Um símbolo cultural de luxo e efemeridade

A raridade moldou profundamente o lugar da lichia na história e na cultura. No século 8, durante a dinastia Tang, o imperador Xuanzong tornou-se famoso por enviar mensageiros a cavalo em jornadas de mais de mil quilômetros. A missão? Levar lichias frescas para sua consorte favorita, Yang Guifei. Um poema da época imortalizou a cena, descrevendo a dama sorrindo ao ver a poeira levantada na estrada por um cavaleiro cuja única missão secreta era entregar a carga preciosa.

Esse episódio transformou a fruta em um poderoso símbolo de luxo, proximidade do poder e um bem acessível apenas a poucos. No Brasil, ela encontrou seu nicho como iguaria da virada do ano. A floração no inverno e o calor de novembro e dezembro permitem que os frutos atinjam o ponto ideal e ostentem sua casca vermelha vibrante justamente para as festas de Ano-Novo, enfeitando e adoçando as mesas por um curto período de algumas semanas.

Para lidar com sua brevidade, os chineses desenvolveram há séculos técnicas de conservação, como secar a fruta, preservá-la em caldas ou transformá-la em vinhos e licores. Apesar dessas alternativas, a lichia fresca continua sendo a forma mais desejada. Talvez porque seu caráter efêmero nos lembre que o valor e a doçura de muitas experiências na vida estão intrinsecamente ligados à sua natureza passageira.