Looksmaxxing: a busca pela aparência perfeita que divide opiniões entre jovens
Marvin, um jovem de 26 anos, reflete sobre sua própria aparência e atribui a si mesmo uma nota "7 de 10". Ele acredita que, com algum esforço adicional, poderia alcançar um "9 de 10". "Não estou satisfeito com minha pele", comenta ele, destacando preocupações com olheiras e a linha da mandíbula. Para melhorar esses aspectos, Marvin incorporou à sua rotina diária diversas técnicas do chamado looksmaxxing, movimento que busca otimizar a aparência física através de hábitos específicos.
Rotina intensa e cuidados extremos
O dia de Marvin começa cedo com treinos intensos na academia. Após retornar para casa, ele inicia uma sequência meticulosa de cuidados. Primeiro, toma banho alternando água quente e gelada. Em seguida, limpa e massageia o rosto com um pepino congelado, prática que, segundo ele, reduz inchaços, combate a acne e proporciona mais luminosidade à pele. Marvin também realiza exercícios faciais específicos, como o "Zygopush" e o "Hunter squeeze", destinados a esculpir bochechas e afinar o olhar.
Ele compartilha vídeos dessas rotinas com seus 35 mil seguidores no TikTok, muitas vezes gerando curiosidade e estranhamento. "Às vezes, as pessoas me veem e pensam: 'O que este homem está fazendo?'", ri ele. Marvin está convencido de que essas práticas o ajudam a alcançar seu ideal estético: bochechas afundadas, perfil esculpido, olhos afilados e mandíbula forte.
O fenômeno do looksmaxxing e suas variações
Bem-vindo ao mundo digital do looksmaxxing, onde cada vez mais jovens se dedicam a alcançar o que consideram um rosto e corpo perfeitos. O movimento se divide em duas categorias principais: o softmaxxing, que inclui treinos na academia e cuidados com a pele, e o hardmaxxing, que envolve práticas mais radicais como consumo de hormônios não regulamentados, batidas nos ossos do rosto (bone smashing) e até cirurgias.
Muitos adeptos utilizam aplicativos de análise facial para avaliar seus traços e identificar áreas de melhoria. Braden Peters, conhecido como "Clavicular", é um dos maiores influenciadores do setor. Com mandíbula marcada, ele é considerado um "giga chad" (nota 10) na hierarquia da atração. Peters atribui sua aparência ao uso de testosterona desde os 14 anos e a práticas como bater na mandíbula com martelo, métodos desaconselhados por profissionais de saúde.
Riscos e conexões com culturas problemáticas
Especialistas alertam que o looksmaxxing pode servir como porta de entrada para a "machosfera", uma subcultura ultramasculina que frequentemente propaga retórica misógina. O termo surgiu originalmente em fóruns de incels (celibatários involuntários), onde homens jovens culpam mulheres por sua falta de relações sexuais.
O jornalista Matt Shea, que estuda masculinidade tóxica, explica que influenciadores como Andrew Tate e "Clavicular" vendem a ideia de que homens precisam aumentar seu "valor de mercado sexual" (SMV) para serem bem-sucedidos. "Eles dizem aos homens jovens que são inúteis e se apresentam como solução", afirma Shea. Quando os esforços não resultam em atração feminina, a culpa é atribuída ou ao próprio homem (por não se esforçar o suficiente) ou às mulheres, criando um ambiente perigoso.
Experiências diversas e motivações variadas
Nem todos os looksmaxxers se identificam com ideologias tóxicas. Leander, por exemplo, enfatiza que pratica softmaxxing para melhorar sua autoestima, não para se associar à cultura incel. Após um término de relacionamento em 2023, ele desenvolveu uma rotina que inclui academia, imersões do rosto em água gelada e eliminação da pornografia. "A pornografia distorce totalmente a percepção e a atração em relação às mulheres", explica ele.
Leander afirma que agora se sente satisfeito com sua aparência "80% do tempo", mas reconhece que, para quem não é "convencionalmente atraente", o softmaxxing pode ter limitações. Ele entende por que alguns podem ser empurrados para o mundo incel, mesmo não aprovando essa trajetória.
Tom Thebe, de 23 anos, começou a se interessar pelo looksmaxxing quando começou a perder cabelo aos 21. "Foi um golpe forte para minha confiança", conta ele. Thebe pesquisa tratamentos como finasterida e minoxidil (medicamentos aprovados) e também utiliza peptídeos não regulamentados, como GHK-Cu e Melonatan 2, apesar dos alertas de agências de saúde sobre sua segurança.
Alertas de especialistas e perspectivas futuras
Anda Solea, pesquisadora da Universidade de Portsmouth, estuda como a cultura incel pode se infiltrar na sociedade. Ela explica que o looksmaxxing existe em um espectro: de um lado, há aspectos positivos como homens se preocuparem com saúde e forma física; do outro, riscos quando a aparência se torna obsessão e coloca a saúde em perigo.
Solea alerta que algoritmos das redes sociais podem levar jovens a cantos obscuros da machosfera, onde são pressionados a praticar looksmaxxing extremo ou enfrentar ridicularização. "Se, após todos os esforços, as mulheres não se sentirem atraídas, eles começarão a odiá-las porque a culpa é delas?", questiona ela.
As experiências de Marvin, Leander e Thebe ilustram que as motivações para o looksmaxxing podem surgir tanto da autoimagem quanto da percepção de como são vistos pelos outros. Enquanto alguns encontram benefícios em cuidados moderados, outros mergulham em práticas arriscadas, revelando um fenômeno complexo que continua a ganhar espaço nas redes sociais e na vida de muitos jovens.



