O medo como modelo de negócio na era digital
Vivemos tempos curiosos, onde nunca tivemos tantas facilidades, mas também nunca estivemos tão acuados. O marketing moderno descobriu um atalho eficiente para vender produtos, serviços e comportamentos: o medo. Não se trata do medo abstrato ou filosófico que sempre moveu a humanidade, mas do medo prático, cotidiano e quase doméstico que aparece na tela do computador, avisando que algo vai quebrar, travar, sumir ou nos excluir do mundo se não agirmos imediatamente.
A chantagem silenciosa da tecnologia
As mensagens são alarmantes e urgentes: Seu computador vai parar! Seu celular ficará obsoleto! Seus dados serão roubados! Seu cadastro será cancelado! Seu acesso será bloqueado! Tudo isso acompanhado de um botão vermelho, um prazo urgente ou uma ameaça velada de exclusão social. O terror deixou de ser coisa de livros como Drácula ou filmes como Pecadores e passou a morar na rotina, aparecendo em forma de notificação, e-mail ou mensagem automática. Não grita, não sangra, mas paralisa, transformando o medo de perder o acesso no medo de deixar de existir.
Hoje, quem não está cadastrado não circula. Não se trata apenas de cadastros governamentais, mas dos muitos que somos obrigados a fazer. Um exemplo recente ocorreu no shopping VillageMall, no Rio de Janeiro, onde uma amiga foi impedida de sair com o carro do estacionamento se não baixasse um aplicativo e preenchesse um cadastro. Para entrar, não pediram nada; para sair, a autorização tornou-se obrigatória. Criou-se um mundo em que, para viver, é preciso autorizar: para comprar, viajar, trabalhar e, talvez em breve, até para amar, com termos e condições a serem aceitos.
O discurso da segurança e a sensação de ameaça
O discurso é sempre o mesmo: É para a sua segurança, é para a sua proteção. No entanto, curiosamente, quanto mais protegidos estamos, mais ameaçados nos sentimos. O marketing do medo não vende apenas produtos; ele vende urgência, dependência e a sensação de que estamos sempre atrasados, sempre devendo, sempre a um clique de perder tudo. Nessa corrida sem linha de chegada, vamos cedendo, não por concordância, mas por temor de ficar de fora.
O mais perverso é que esse terror é silencioso e educado. Não bate na porta; ele pisca na tela. Não invade; solicita. E nós, obedientes, clicamos, afinal, quem quer correr o risco de ficar para trás? A tecnologia, que deveria nos libertar, transformou-se em uma ferramenta de chantagem, onde o progresso parece um aviso constante de catástrofe.
A necessidade de desconfiar e recuperar a liberdade
Talvez seja a hora de desconfiar, de respirar antes de aceitar, e de lembrar que viver não pode ser uma sucessão de ameaças disfarçadas de conveniências. Uma sociedade que se move pelo medo não evolui; apenas obedece. Definitivamente, isso não é progresso. A tecnologia deve servir para ampliar nossas possibilidades, não para nos aprisionar em ciclos de medo e dependência.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981, este artigo de Walcyr Carrasco convida à reflexão sobre como podemos resistir a essa chantagem silenciosa e recuperar a verdadeira liberdade que a era digital prometia.