Orquestra Malassombro renova o frevo com fusão de ritmos e homenagens à tradição pernambucana
Orquestra Malassombro renova frevo com novos ritmos e tradição

Orquestra Malassombro lidera renovação do frevo com fusão de ritmos e reverência à tradição

Mais de um século depois de nascer nas ruas do Recife, o frevo continua cumprindo seu papel essencial: unir e animar pessoas durante as festividades. No entanto, para preservar esse legado cultural tão valioso, o gênero musical pernambucano está passando por um processo vibrante de renovação, incorporando novas vozes e experimentando com diferentes estilos musicais. Entre memórias afetivas profundas e ousadas experimentações sonoras, artistas de Pernambuco demonstram que o ritmo segue em constante movimento, estabelecendo um diálogo criativo com o presente sem jamais abandonar suas raízes tradicionais.

Novas vozes e experimentações no cenário musical

Nascida em Caruaru, no Agreste pernambucano, a cantora Kira Aderne, vocalista da banda Diablo Angel, está preparando para 2026 o que será seu primeiro frevo na carreira, após uma década dedicada ao rock e à música pop. A estreia está programada para o carnaval deste ano, marcando uma transição significativa em sua trajetória artística. "É o meu primeiro frevo. Muita alegria de estar aqui estreando esse frevo no carnaval aqui em 2026. É uma surpresa, até para mim mesma, de surgir esse frevo, de forma muito espontânea", revelou a artista com entusiasmo.

A gravação da música ocorreu no estúdio do renomado produtor musical e guitarrista Júnior Cap, localizado no Centro do Recife. Em entrevista, ele destacou que a experimentação faz parte intrínseca do processo criivo e que o frevo sempre demonstrou abertura para novas interpretações. "Eu tenho recebido muitos convites, ainda bem, para fazer música experimental e não é diferente com o frevo. Eu gravei um frevo meio que tradicional, alguns dias atrás, com a galera da Metaleira, os medalhões aqui da cidade", compartilhou o produtor.

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Para Júnior Cap, a filosofia é clara e direta: "A gente está sempre aberto a novos projetos, experimentos. Quando é com relação ao frevo, aí é que estamos abertos mesmo. Quem manda aqui sempre é a música", afirmou, enfatizando a primazia da expressão musical sobre convenções rígidas.

Transformação como essência do gênero

O jornalista e crítico musical José Teles, que acompanha a trajetória do frevo há décadas, argumenta que a transformação está na própria essência do gênero. Segundo sua análise histórica, o ritmo alternou consistentemente entre períodos de modernização audaciosa e fases mais conservadoras ao longo do tempo. "O frevo de Capiba era muito moderno, mas teve uma época, mais ou menos entre a década de 60, principalmente na década de 70, que ele ficou muito tradicionalista, porque tinha os donos do frevo, que não queriam que mexessem no frevo", explicou Teles.

O cenário começou a mudar radicalmente a partir das comemorações do centenário do gênero. "A parte mais radical foi a partir do centenário do frevo, que o frevo foi superbadalado, aconteceram muitas coisas. E, a partir daí, surgiu a orquestra de Spok, bombada, e aí realmente o frevo foi-se embora", relembrou o crítico, referindo-se a um momento crucial de renovação na história do ritmo.

Orquestra Malassombro: entre memória e inovação

Criada em 2018, a Orquestra Malassombro ocupa precisamente esse território fértil entre memória cultural e invenção contemporânea. O grupo reúne músicos com carreiras solo consolidadas e aposta fortemente em um repertório autoral, misturando instrumentos tradicionais do frevo de rua com outros menos convencionais, como bandolim e pandeiro.

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"A gente queria cantar a saudade do nosso tempo. Vem com Edgar Morais, a ideia da saudade de um carnaval que passou e tal", contou Isadora Melo, cantora, compositora, atriz e integrante fundamental da orquestra. Segundo a artista, o grupo busca reverenciar personagens importantes da cultura pernambucana, mantendo simultaneamente um olhar atento para o presente. "A gente canta esses personagens que são importantíssimos para a nossa cultura, para nossa identidade, para nossa música. Felinto, Levino, Pedro Salgado, Guilherme Fenelon. A gente queria falar dos nossos personagens, que a gente convive, conhece, e cantar o frevo do nosso tempo, que é perder um chinelo em Olinda, porque estava descendo ladeira, pisar no negócio que não era muito agradável", comentou com humor característico.

Abertura natural para outros ritmos

Para o percussionista Júnior Teles, o frevo é por natureza um gênero aberto e sem limites formais rígidos para a criação musical. "O frevo é uma grande sombrinha. Dentro do frevo, talvez seja o gênero que a gente mais veja mistura de ritmos", explicou de maneira vívida. Ele destacou especialmente o papel do pandeiro na criação de novas sonoridades dentro do gênero. "O pandeiro é um instrumento chamado de bateria de bolso. Com ele a gente pode fazer bastante coisa. O frevo tem esse poder de abraçar mais outros ritmos também e o pandeiro ele gera inúmeras possibilidades para a gente", afirmou com convicção.

Laís Senna, cantora, compositora e passista experiente, defende o frevo a partir de sua vivência direta nas ruas durante os carnavais. Ex-integrante do Balé Popular do Recife por 15 anos e com formação sólida em canto popular, ela revelou que sua identidade artística nasce fundamentalmente da experiência no carnaval. "É uma coisa que parte muito da memória afetiva, da nossa identidade. Eu me entendo muito como uma pessoa do frevo de rua. Quando eu vou me apresentar. Eu chego no bloco me apresentar, eu chego e digo: 'eu sou Laís Senna, sou do frevo de rua'", declarou com orgulho.

Em 2025, a artista lançou seu primeiro EP, intitulado "Olinda, Frevo, Amor e Canção", inspirado diretamente em suas experiências como foliã. Para ela, criar novos frevos dentro de uma tradição centenária exige persistência e dedicação extraordinárias. "A gente vai tentando introduzir aos poucos essas novas músicas e tal. Então eu venho meio que comprando essa briga. Porque dá trabalho. O gênero é uma coisa que é para doido. Só se você for maluco para você encarar dançar frevo, encarar cantar, que é difícil. Para você tocar e arranjar então… Esqueça tudo", brincou, destacando os desafios e recompensas de trabalhar com um gênero tão rico e complexo.