Lollapalooza 2026 Inicia com Debate sobre Masculinidade Contemporânea
O primeiro dia do Lollapalooza 2026, realizado na sexta-feira 20 de março, encerrou com uma apresentação aguardada de Sabrina Carpenter, a estrela pop americana que atraiu uma multidão gigantesca ao Palco Budweiser. A cantora levantou um intenso coro que questionava se um parceiro amoroso seria estúpido, lerdo ou inútil, em uma abordagem jovial e bem-humorada que refletiu um tema central da programação: a revisão, questionamento e sátira da masculinidade contemporânea.
Viagra Boys: Crítica à Hiper Masculinidade
Desde a primeira grande atração estrangeira do dia, o grupo Viagra Boys, originário de Estocolmo, estabeleceu o tom com sua crítica à hiper masculinidade através de uma sonoridade punk rock. Liderados pelo vocalista Sebastian Murphy, que aparece descamisado e longe dos padrões esculpidos de beleza masculina, a banda desafia tendências como o "looksmaxxing", onde jovens buscam maximizar sua aparência com métodos extremos.
As letras vulgares de músicas como Man Made of Meat e Pyramid of Health dialogam diretamente com conspirações e crenças radicais disseminadas entre homens na internet. Em Troglodyte, Murphy narra: "Ele diz que não acredita na ciência / ele diz que as notícias são todas fake / na calada da noite ele senta em frente ao computador / e escreve sobre todas as coisas que odeia".
Apesar do horário entre 15:50 e 16:50, o grupo atraiu público suficiente para transformar o vale ao redor do Palco Samsung Galaxy em um formigueiro, com momentos de pico de energia incluindo moshpits e crowdsurfing sem incidentes.
Blood Orange: Valores Expansivos e Elegância Musical
Logo em seguida, Blood Orange, nome artístico do inglês Dev Hynes, embalou o pôr do Sol com faixas cheias de suingue do disco Essex Honey, inspirado em sua criação em Londres. Antes mesmo de começar a cantar, o artista emitiu parte da música Family de 2018, que sugere a troca da família nuclear por valores mais expansivos: "Aparecer como se é, sem julgamentos ou ridicularização. Sem medo ou violência. Sem policiamento e sem detenções. Você pode estar lá e se sentir realizado. Nós podemos escolher nossas famílias. Nós não somos limitados pela biologia".
Durante a apresentação, Hynes enfrentou problemas técnicos, incluindo um telão descompassado, mas manteve o foco na música. Como produtor condecorado e violoncelista talentoso, ele entregou o show mais elegante do dia e, provavelmente, de todo o festival.
Doechii e Sabrina Carpenter: Reclamações Afetivas e Cenografia Robusta
Com menos nuances, Doechii e Sabrina Carpenter engrossaram o coro que aponta a crise da masculinidade contemporânea. Das 17 faixas apresentadas por Sabrina, seis se queixam sobre a escassez de homens maduros. Já um dos maiores hits da rapper, Denial is a River, desata um fluxo de consciência a partir de uma decepção amorosa com um homem enrustido.
As reclamações de ambas não vão muito além da esfera afetiva típica, mas a simplicidade do teor é balanceada por graves e cenografia robusta. Doechii recorreu a um palco adornado com tecidos e coreografias frenéticas ao lado de suas dançarinas, enquanto Sabrina Carpenter fez um show bem embalado pela premissa de um programa de televisão setentista.
A popstar esbanjou carisma e humor, mas pecou no equilíbrio de seu repertório, com canções menos conhecidas como Coincidence e Don’t Smile parecendo perdidas entre hits cheios de vida como a excelente House Tour. Mesmo assim, suas jovens fãs gritavam cada letra com dedos em riste e timbre gutural, demonstrando mais entusiasmo do que muitos roqueiros presentes.
Festival Antenado com Temas Contemporâneos
Para além de qualquer julgamento artístico, fato é que a 13ª edição do Lollapalooza já se mostra a mais antenada em muito tempo, trazendo à tona discussões relevantes sobre gênero e sociedade através de sua programação diversificada e engajada.



