Juca de Oliveira: há 17 anos, turnê com peça dirigida por Jô Soares criticava corrupção política
Juca de Oliveira: turnê com Jô Soares criticava corrupção há 17 anos

Juca de Oliveira: relembre turnê histórica com peça dirigida por Jô Soares

Há exatos 17 anos, o renomado ator e dramaturgo Juca de Oliveira, que faleceu neste sábado aos 91 anos, estava em plena turnê com a peça "Happy Hour", uma montagem solo sob a direção do também icônico Jô Soares. Neste espetáculo único, Juca dividia com o público, diretamente do palco, suas opiniões e reflexões sobre os problemas cotidianos da sociedade brasileira, com especial foco na crítica à corrupção política.

Críticas contundentes à classe política durante apresentação em Ribeirão Preto

Durante uma memorável passagem por Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, para uma apresentação no tradicional Theatro Pedro II, Juca de Oliveira concedeu uma entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo, onde explicou o propósito da peça e não poupou palavras ao criticar a corrupção enraizada na classe política brasileira. "Os nossos políticos são extremamente prolíferos, são criativos, inventam falcatruas quase todos os dias", afirmou o ator, com a sagacidade que o caracterizava.

Ele complementou, destacando a atualização constante do espetáculo: "Eu vou atualizando, todo dia acontece uma nova, eu vou botando e repartindo com o público. O público adora, porque sabe que tem alguém pelo menos que está gritando por eles". Esta fala revela não apenas o conteúdo engajado da peça, mas também a conexão profunda que Juca buscava estabelecer com seus espectadores.

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Experiência inédita: conversando diretamente com o público

Na mesma entrevista, Juca de Oliveira contou que, apesar de sua vasta e respeitada experiência teatral – acumulada ao longo de mais de cinco décadas –, era a primeira vez que atuava conversando diretamente com o público, em um espetáculo onde o personagem principal era ele mesmo, com todas as suas peculiaridades e opiniões.

"É um bate-papo descontraído em um botequim com o público, é a primeira vez, a despeito de ter atuado 50 anos, ter escrito e representado dezenas de peças, eu nunca tinha tido a oportunidade de conversar pessoalmente com o espectador, com o qual eu vivo mais do que com a minha própria família", confessou o artista, emocionado com a novidade da experiência.

A mão de Jô Soares na concepção do espetáculo

Juca também ressaltou a importância fundamental da direção de Jô Soares na criação de "Happy Hour". Foi o próprio Jô quem sugeriu reunir diferentes textos já escritos por Juca e transformá-los em um formato cênico coeso e impactante. "Foram alguns textos que eu tinha, o Jô Soares falou: 'vamos fazer um espetáculo com esses textos'", relembrou o ator.

Ele explicou ainda a natureza singular da peça: "Não é uma personagem, por isso é um espetáculo solo, não é um monólogo, é um espetáculo no qual eu digo e reflito as minhas próprias excentricidades, as minhas perplexidades, as coisas que me indignam, as coisas que me fascinam". Esta definição captura a essência íntima e confessional do trabalho.

O legado de Juca de Oliveira

O ator e dramaturgo Juca de Oliveira faleceu na madrugada do sábado, 21 de setembro, em São Paulo, aos 91 anos. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Sírio-Libanês desde o dia 13 de março, devido a um quadro de pneumonia associado a uma condição cardiológica.

Nascido José Juca de Oliveira Santos em 16 de março de 1935, em São Roque, interior de São Paulo, ele iniciou sua carreira no teatro nos anos 1950. Seu currículo impressionante inclui mais de 30 novelas e minisséries, além de participação em mais de dez longas-metragens e 60 peças teatrais, muitas das quais também assinou como autor.

Na televisão, seu papel mais marcante foi na novela "O Clone", de Glória Perez, onde interpretou o médico geneticista Doutor Albieri, responsável pela produção de um clone humano. O velório foi realizado no Funeral Home, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, restrito a amigos e familiares.

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A turnê com "Happy Hour", sob a direção de Jô Soares, permanece como um testemunho vívido do talento, da coragem e do engajamento social de Juca de Oliveira, um artista que nunca hesitou em usar o palco como tribuna para denunciar as mazelas da sociedade e, especialmente, a corrupção na política brasileira.