João Pacífico: O compositor caipira que moldou a música sertaneja e mantém viva sua memória em Cordeirópolis
Quem visita Cordeirópolis, no interior de São Paulo, pode se surpreender ao encontrar o nome de João Pacífico em diversos locais da cidade. Nascido em 5 de agosto de 1909, o falecido compositor, que partiu em 30 de dezembro de 1998, continua a influenciar o cotidiano local e a cena musical brasileira, especialmente durante eventos como o Limeira Rodeo Music, que ocorre até este sábado (28). Suas composições, como "Chico Mulato", "Cabocla Tereza" e "Pingo d'Água", acumulam dezenas de gravações por ícones do sertanejo, evidenciando seu impacto duradouro.
Uma obra vasta e inovadora na música caipira
De acordo com o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, mantido pelo Instituto Cultural Cravo Albin (ICCA) e iniciado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1995, João Pacífico produziu um total impressionante de 1.450 composições, das quais 650 já foram gravadas. Sua música "Cabocla Tereza", por exemplo, foi interpretada por grandes nomes como Chitãozinho & Xororó, Tonico & Tinoco, Sérgio Reis e Eduardo Costa, destacando-se por narrar uma história de feminicídio que reflete questões sociais da época.
O pesquisador Walter de Sousa, autor do livro "Moda Inviolada - Uma História da Música Caipira", explica que Pacífico é reconhecido como o criador da "toada poética", um gênero narrativo que descreve a vida no campo com um tom melancólico e episódios dramáticos. "Ele tem uma poesia bem típica, focada na simplicidade e nas pequenas coisas do cotidiano caipira, como em 'Mourão da Porteira' ou músicas sobre doces de cidra", afirma Sousa. Essa inovação, com prelúdios instrumentais na viola e andamento lento, consolidou-se na indústria fonográfica, levando gravadoras a solicitarem mais obras do compositor.
Homenagens e preservação cultural em Cordeirópolis
Apesar de ter se mudado de Cordeirópolis ainda na infância, João Pacífico sempre manteve forte ligação com a cidade, orgulhando-se de suas origens. Em reconhecimento a seu legado, o município batizou o teatro municipal com seu nome, localizado na Rua Siqueira Campos, 404, na Vila Lídia. A prefeitura destaca que o espaço é vital para apresentações artísticas, eventos culturais e atividades educativas, fortalecendo a produção cultural local.
Além disso, Cordeirópolis instituiu o Dia Municipal da Música Sertaneja, celebrado em 5 de agosto, data do nascimento de Pacífico. No ano passado, a cidade realizou um evento especial com exposição de fotos, apresentação do grupo Pingo D'Água dedicado às músicas do compositor, recital de poesias, orquestra de violeiros e shows de artistas sertanejos locais. A iniciativa foi incorporada ao cronograma oficial de eventos, garantindo sua continuidade nos próximos anos. A prefeitura também disponibiliza gratuitamente um livro com letras e poesias de Pacífico, assegurando que sua obra permaneça acessível à comunidade.
Análise crítica de "Cabocla Tereza" e questões sociais
A música "Cabocla Tereza", composta na década de 1940, serve como um documento histórico que ilustra como a violência contra a mulher era tratada na época. A letra narra, em primeira pessoa, um feminicídio motivado por vingança passional, com um personagem testemunhando o crime. Cristina Betioli, professora de Letras da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Campinas, ressalta que, naquele período, as mulheres viviam em condição de submissão, sem amparo legal contra agressões. "Elas eram mortas sem consequência quando desagradavam homens que agiam como seus tutores", explica.
Do ponto de vista artístico, Betioli elogia a metrificação "perfeita" e a elaboração poética da canção, mas defende que ela deve ser analisada criticamente. "É importante não abolir essas obras, mas sim promover debates e ponderações sobre a naturalização da violência em suas letras", destaca. Essa abordagem permite valorizar a criação cultural enquanto se discute temas sensíveis, como o feminicídio.
Trajetória de vida e reconhecimento tardio
João Pacífico teve uma infância humilde no campo em Cordeirópolis, saindo da cidade aos 7 anos. Em Limeira (SP), começou a tocar bateria em uma orquestra de cinema, e mais tarde mudou-se para Campinas. Sua vida não se limitou à música; na adolescência, trabalhou como ajudante de lavador de pratos nos vagões-restaurante da Cia Paulista de Estradas de Ferro. Foi durante esse trabalho que o poeta Guilherme de Almeida descobriu seu talento para versos, incentivando-o a buscar a rádio em São Paulo e a compor para duplas como Raul Torres & Florêncio.
Apesar de sua prolífica carreira como compositor, Pacífico enfrentou dificuldades para alcançar reconhecimento popular, aposentando-se como motorista particular. Walter de Sousa sugere que sua condição de artista negro pode ter limitado sua visibilidade em uma época em que o samba dominava as representações de negros na música. Seu reconhecimento veio tardiamente, após uma participação no programa de televisão "Viola, Minha Viola", convidado pela cantora Inezita Barroso. A partir daí, artistas passaram a procurá-lo para gravar suas composições, solidificando seu status como ícone caipira.
João Pacífico faleceu em Guararema (SP), aos 89 anos, devido a problemas respiratórios. Sua morte, em 1998, não apagou seu legado; pelo contrário, sua música continua a ecoar em Cordeirópolis e em todo o Brasil, lembrando-nos da riqueza da cultura caipira e da importância de preservar suas histórias e inovações artísticas.



