Crítica: Álbum ao vivo de Martins soa agradável, mas desnecessário no mercado fonográfico atual
O mercado fonográfico dos anos 2020 se mostra extremamente voraz e volátil, o que talvez explique a necessidade de Martins em lançar um registro ao vivo de um show onde atua como intérprete, sem necessariamente alçar voos criativos mais ousados. Este disco, intitulado "Ao vivo na Casa Estação da Luz", chega ao mundo na próxima sexta-feira, 27 de fevereiro, através da gravadora Deck, enquanto o cantor, compositor e violonista pernambucano se prepara para lançar seu terceiro álbum solo de estúdio.
Gravação intimista em Olinda perpetua 11 números do show "Versões"
O álbum perpetua 11 números do show apresentado por Martins no dia 21 de dezembro de 2024, no espaço intimista da Casa Estação da Luz, localizada em Olinda, Pernambuco. Escorado no toque do próprio violão e no aconchego do público presente, cujo coro espontâneo nas músicas encorpa e aquece significativamente a gravação ao vivo, o artista adoça canções alheias com sua voz suave, talhada para melodiosas canções românticas.
Entre as faixas destacadas, estão "Veja Margarida" de Vital Farias, original de 1975, e "A lua Q eu T dei" de Herbert Vianna e Paulo Sérgio Valle, lançada no ano 2000. Esta última foi escolhida para anunciar o álbum como single, lançado em setembro do ano passado. Na sequência, já em janeiro deste ano de 2026, saiu o single "Fullgás", que se mostra menos envolvente, pois o cantor dilui a pulsão característica de "música, letra e dança" da composição original de 1984, um título bastante conhecido da parceria entre Marina Lima e seu irmão poeta Antonio Cicero.
Surpresas e ausências no repertório do álbum
Ainda que não imprima uma assinatura marcante ao longo do álbum, Martins surpreende mais ao suavizar a aura de sensualidade do brega romântico "Ânsia", de Esdras Azevedo. Esta música foi popularizada pela Companhia do Calypso em 2003, um ano após ter sido apresentada na voz de Eliza Mell em gravação lançada em 2002 pela banda pernambucana Brega.com, conterrânea de Martins. Curiosamente, "Ânsia" chega ao disco na voz de Martins cinco anos após a música ter sido revitalizada por Pabllo Vittar no álbum "Batidão tropical", lançado em 2021.
Com produção musical orquestrada por Rodrigo Samico, responsável pela calorosa captação do áudio, e André Brasileiro com o próprio Martins, o álbum "Ao vivo na Casa Estação da Luz" soa tão agradável quanto, a rigor, desnecessário. Até porque o repertório omite composições mais inusitadas presentes no roteiro original do show "Versões", como é o caso de "Circuladô de fulô" de Caetano Veloso sobre texto de Haroldo de Campos, de 1991.
Em vez disso, o álbum prioriza canções mais populares, como "Bandeira" de Zeca Baleiro, de 1997, com o agravante de que já existiam registros fonográficos anteriores de músicas como "Jardim da fantasia" de Paulinho Pedra Azul, de 1982, e "Na paz" de Orlando Morais, de 2001, na voz do próprio Martins.
Falta identidade autoral no disco ao vivo
Martins possui uma obra autoral que tem se revelado interessante diante da vasta produção musical brasileira do século XXI. No entanto, no álbum "Ao vivo na Casa Estação da Luz", o artista soa como um bom cantor de barzinho quando puxa um pop popular romântico como "Frisson" de Tunai e Sérgio Natureza, original de 1984. Falta neste disco ao vivo a identidade já delineada pelo artista em sua discografia autoral, o que levanta questões sobre a real necessidade deste lançamento no atual cenário musical.
O álbum, portanto, funciona como um registro competente e agradável de um momento íntimo, mas não consegue se destacar como uma contribuição essencial para a carreira de Martins ou para o mercado fonográfico contemporâneo.



