Anitta explora sincretismo religioso em 'Equilibrivm': análise das referências espirituais do álbum
Anitta explora sincretismo religioso em novo álbum 'Equilibrivm'

Anitta explora sincretismo religioso em 'Equilibrivm': análise das referências espirituais do álbum

"Nem tão enlouquecida, nem tão zen. Nem tão prepotente, nem tão baixo-astral". É com essa definição de equilíbrio que Anitta apresenta seu oitavo álbum, "Equilibrivm", lançado na última quinta-feira (16). Após conquistar as paradas globais com o reggaeton, a artista brasileira agora sintetiza seu momento "good vibes" em um projeto que celebra a pluralidade de crenças e tradições espirituais do Brasil.

Identidade visual: a fé e a festa em diálogo

A identidade visual do álbum ficou a cargo da Arado, marca mineira especializada no imaginário rural brasileiro. Luís Matuto, diretor criativo da plataforma, revela que Anitta solicitou elementos que representassem tanto as matrizes africanas quanto o sincretismo religístico nacional. "O álbum fala sobre a relação entre o sagrado e profano. A fé e a festa", explica Matuto.

O trabalho incluiu artes de divulgação, capas de singles e ilustrações para lyric videos, desenvolvidas em apenas duas semanas. Em "Desgraça", por exemplo, foram incorporados elementos do Candomblé como o violeiro, o galo de Exu e a encruzilhada. Já em "Caminhador", aparecem referências às festas populares, como o Caboclo de Lança do Maracatu nordestino e o Bastião das Folias de Reis.

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Clipes e narrativa espiritual dividida em atos

Até o momento, apenas "Desgraça" recebeu videoclipe oficial, mas a produção inaugura uma narrativa dividida em quatro atos que serão lançados semanalmente até 7 de maio. Os temas são "Despacho", "Fé e Festa", "Deus Mãe" e "Renascimento".

Nídia Aranha, diretora criativa do álbum, explica que a música "Desgraça" é uma saudação a Exu, entidade que abre caminhos e conecta mundos. "Referenciamos a figura da Pombagira como expressão de poder feminino e autonomia do desejo", afirma. O clipe apresenta elementos como jogada de búzios, o galo de Exu e a encruzilhada, além de máscaras do artesão maranhense Mestre Zimar, inspiradas nos Cazumbás do Bumba Meu Boi.

Letras e samples: um mapa da espiritualidade brasileira

O álbum conta com 15 faixas nesta primeira parte e diversas parcerias, incluindo a banda de reggae Ponto de Equilíbrio e a dupla Emanazul, que define seu som como "música medicina". As letras apresentam referências religiosas e espirituais variadas:

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  • "Desgraça": exalta a força da Pombagira com menções às "sete encruzilhadas" e "sete saias" da Umbanda
  • "Mandinga" (com Marina Sena): utiliza o samba "O Canto de Ossanha" para criar atmosfera de sedução
  • "Caminhador" (com Liniker): celebra a jornada espiritual através do trocadilho "Caminha, com a minha dor"
  • "Bemba" (com Luedji Luna): celebra a Bahia como berço da resistência afro-brasileira com referências a oferendas
  • "Ternura" (com Melly): evoca a energia de Oxum, orixá das águas doces
  • "Deus Existe" (com Ponto de Equilíbrio): relato pessoal sobre como a espiritualidade ajudou Anitta a buscar equilíbrio mental
  • "Nanã" (com Rincon Sapiência & King): baseada em "Cordeiro de Nanã" dos Tincoãs, exalta a orixá anciã
  • "Choka Choka" (com Shakira): faz referência ao ritual Kuarup indígena que celebra a vida e a memória dos mortos
  • "Meia Noite" (com Los Brasileros): ode a Exu Mulher onde Anitta assume a voz da Pombagira
  • "Ouro" (com Emanazul): funciona como meditação guiada com mantras à deusa budista Tara

Looks e acessórios: proteção e simbolismo

Durante sua participação no Saturday Night Live em 11 de abril, Anitta usou um bracelete de palha-da-costa trançada que funciona como contra-egum - amuleto de proteção fundamental nas religiões de matriz africana. Segundo os stylists André Philipe e Daniel Ueda, a escolha de cores é estratégica: o branco remete às vestes dos iniciados no Candomblé, enquanto vermelho, dourado e prata evocam a força das entidades de rua.

Contexto histórico: Anitta na tradição musical brasileira

Para Luane Fernandes Costa, pesquisadora de sonoridades afro-indígenas da UFRN, a música brasileira sempre foi um "arquivo vivo" dessas matrizes. "Em casas de matriarcas como Tia Ciata, percussão, canto e dança serviam tanto ao culto de orixás quanto à festa", analisa. Estima-se que mais de mil canções da MPB tenham referências diretas a orixás e entidades, em obras de Jorge Ben Jor, Clara Nunes, Alcione e Racionais MC's.

Thiago Soares, professor da UFPE especialista em cultura pop, compara o mergulho espiritual de Anitta a momentos similares de artistas como Beatles, Tim Maia Racional e Madonna. "Recorrer à espiritualidade após o álbum 'Funk Generation' funciona como uma mudança de eixo estratégica no debate público", observa.

Sincretismo como tradução da formação espiritual brasileira

O historiador Filipe Domingues, especialista em História das Religiões, vê o álbum como tradução da formação espiritual do Brasil. "O sincretismo nacional não foi apenas um disfarce, mas processo de negociação simbólica e sobrevivência cultural", explica. Para ele, ao reunir referências afro-brasileiras e indígenas, Anitta recoloca em cena a pluralidade que marcou historicamente a experiência do sagrado no país.

Domingues destaca ainda a convivência entre sagrado e profano como característica histórica brasileira. "Desde o período colonial, o catolicismo barroco já valorizava procissões e expressões públicas de fé. No Brasil, a festa não é o oposto da religião, mas uma das suas linguagens", finaliza o especialista.

Com cerca de 8,2 milhões de streams nas primeiras 24 horas, "Equilibrivm" demonstra o alcance global de Anitta enquanto celebra as raízes espirituais brasileiras, reforçando que fé e festa são dimensões complementares da cultura nacional.