Alceu Valença: "Sou mais ouvido que Ringo Starr" e revela segredos do sucesso
Alceu Valença: mais ouvido que Ringo Starr no streaming

Alceu Valença: "Sou mais ouvido que Ringo Starr" e revela segredos do sucesso

O cantor pernambucano Alceu Valença, que recentemente completou 80 anos, reflete sobre sua impressionante carreira e como se tornou um verdadeiro campeão do Carnaval de rua. Em entrevista exclusiva, ele detalha como as plataformas de streaming promoveram sua reinvenção e democratizaram sua música em escala global, superando até mesmo ex-Beatles em número de ouvintes.

O fenômeno do Carnaval e a força do frevo

Alceu Valença arrebanhou impressionantes 1,1 milhão de pessoas com seu bloco Bicho Maluco Beleza durante o fim de semana pré-Carnaval, tanto em São Paulo quanto em Olinda. Sua agenda está completamente lotada durante toda a semana da folia, demonstrando sua popularidade contínua.

"Criamos o Bicho Maluco Beleza em 2015, em São Paulo, e foi crescendo, crescendo, virou essa loucura", explica o artista. "Um efeito importante foi popularizar no Sudeste o frevo, que é uma manifestação cultural muito pernambucana e pouco divulgada no resto do país. Além, claro, do maracatu e do caboclinho. Meu repertório mistura tudo isso, é o que chamo de Carnavalença."

Diferenças entre o bloco de rua e os palcos tradicionais

O cantor destaca que a experiência de cantar em um bloco de rua é totalmente diferente dos shows tradicionais. "No bloco, a multidão acompanha a gente. É muita alegria, descontração e agitação. No show, é outra coisa. Há mais concentração e é mais focado no repertório", afirma Valença. "Sou muito festivo. Tenho um Alceu para cada época."

As múltiplas facetas do artista

Nascido entre o agreste e o sertão de Pernambuco, Alceu Valença cresceu imerso em diversas tradições musicais brasileiras. "Ouvia baião, forró, xote, xaxado, marcha de São João, o aboio", relembra. "No Carnaval, sou do frevo. No São João, do baião. Fora disso, viro o cara da sonoridade clássica, que canta com orquestra, especialmente a de Ouro Preto."

Para comemorar seus 80 anos, o artista prepara a turnê 80 Girassóis, que passará por várias capitais brasileiras antes de seguir para a Europa, com apresentações confirmadas em Londres, Paris e Oslo, entre outras cidades.

Segredos da vitalidade aos 80 anos

Como manter tanta energia e disposição após oito décadas de vida? Alceu Valença revela sua fórmula: "Andando. Eu ando pelas cidades, pelas ruas. Subo ladeiras todo dia. Não dirijo — nem quero. Dou 10.000 passos por dia. Já cheguei a 19.000. Sempre gostei de esportes, mas hoje eu só ando e faço pilates, que é bom para o corpo e a cabeça."

O impacto global do streaming

A receptividade internacional de sua música mudou radicalmente nos últimos anos. "Antigamente, quando eu fazia turnê na Europa, só iam brasileiros. Agora, não. Os gringos gostam que é o diabo do meu show", comemora o artista. "Sabe por quê? Por causa da internet. As plataformas de streaming democratizaram os ouvidos."

Valença explica como essa mudança o beneficiou: "No passado, as gravadoras não tinham interesse em divulgar a música brasileira. O foco era a música anglófona. Nunca dei bola para Rolling Stones ou Beatles. Acho bacana, mas nunca faria a música deles. Hoje, no YouTube, tenho 355 milhões de reproduções das minhas músicas. No Spotify, La Belle de Jour tem mais de 180 milhões. Sou mais ouvido que o Ringo Starr (o ex-beatle soma 60 milhões no YouTube). Isso antes era impossível."

A autenticidade pernambucana

Com o filme "O Agente Secreto", feito no Recife e indicado ao Oscar, a cultura pernambucana ganha destaque internacional tanto na música quanto no cinema. Alceu Valença reflete sobre essa ascensão: "A gente tem de tudo um pouco, da sociologia de Gilberto Freyre à literatura de João Cabral de Melo Neto. De músicos a cineastas excelentes. O pernambucano não quer ser imitador. Ele é autêntico. Assim se expandiu pelo mundo."

O artista continua sendo uma força vital na cultura brasileira, demonstrando como a autenticidade regional, combinada com as novas tecnologias de distribuição musical, pode criar conexões globais e garantir longevidade artística.