Zé Pereira: a origem portuguesa do bloco de carnaval que revolucionou a folia no Brasil
Um grupo de amigos, muita bebida alcoólica e tambores comandados por um sapateiro português, criando uma algazarra ensurdecedora. Essa descrição foi utilizada por décadas para explicar o surgimento, no Rio de Janeiro da década de 1850, da brincadeira carnavalesca conhecida como Zé Pereira, que desempenhou um papel fundamental na formação dos blocos de carnaval como os conhecemos atualmente.
Das romarias portuguesas às ruas do Rio
O folguedo, que nasceu abrindo romarias em Portugal e, no Brasil, adquiriu um espírito irreverente de bloco de sujos, inspirou uma das primeiras letras de músicas carnavalescas compostas no país. É consenso entre historiadores que o costume do Zé Pereira foi introduzido por imigrantes do Norte de Portugal, precisamente em um momento em que a imprensa e o governo buscavam elitizar a festa, influenciados por desfiles franceses.
Ao chegar ao Brasil, a brincadeira rapidamente se popularizou e começou a ser organizada também em cortiços, onde residia a população mais pobre da cidade. A versão que atribui a idealização do folguedo apenas a um sapateiro português é atualmente contestada por pesquisadores.
O contexto carnavalesco da época
Na época da chegada do Zé Pereira ao Rio, a brincadeira mais comum no carnaval brasileiro era o chamado jogo do entrudo, no qual as pessoas se molhavam com água usando pequenos invólucros, conhecidos como limões de cera, ou até baldes e seringas. Outras substâncias, como farinha e diversos tipos de sujeira, também eram arremessadas.
Outros tipos de folguedos, como batucadas e pequenos cortejos com músicas executadas por pessoas escravizadas e ex-escravizadas, já haviam sido descritos no carnaval por visitantes estrangeiros, como o pintor francês Jean-Baptiste Debret. No entanto, esses eventos ainda ocupavam pouco espaço nos relatos de viajantes ou na imprensa da época.
O papel do Zé Pereira na democratização do carnaval
Segundo descrições históricas, o Zé Pereira, especialmente ao ser introduzido inicialmente no Brasil nos anos 1850, não produzia necessariamente música, mas sim uma barulheira desorganizada e gritaria. O jornalista e historiador Vitor Padilha Mattos, doutorando do PPGHA/UERJ, estudou profundamente a história do Zé Pereira, inclusive acompanhando manifestações atuais no Norte de Portugal que continuam a abrir procissões na região.
Mattos afirma que o Zé Pereira, que no Brasil ganhou um formato carnavalesco, representou a primeira oportunidade de o povo protagonizar cortejos em larga escala. Ele explica que a configuração original do Zé Pereira está ligada ao acompanhamento de romarias, mas o costume foi adaptado ao chegar ao Brasil.
No Norte de Portugal, principalmente no período de verão, de maio a setembro, há romarias praticamente todo fim de semana em cada aldeia. Há bastante tempo existem tocadores de bombo e de caixa, que muitas vezes formam um trio com a gaita de foles, já que ali também há uma herança celta muito antiga, descreve Mattos.
Ele esclarece que o termo Zé Pereira geralmente se refere ao grupo de músicos ou apenas ao tocador de bombo, como é chamado o tambor. No Brasil, os registros iniciais da brincadeira datam de aproximadamente 1850.
Em algum momento, alguns imigrantes portugueses saem no carnaval tocando esses instrumentos, e a coisa pega. O mais interessante é que, na época, no carnaval do Rio, a elite tentava transpor o carnaval burguês de Paris. As pessoas queriam acabar com o entrudo, por considerá-lo uma prática rude e violenta, que não condizia mais com a sociedade que almejavam, explica o historiador.
A disputa pela origem: sapateiro ou transposição coletiva?
Durante muitas décadas, atribuiu-se a origem do primeiro Zé Pereira no Rio à iniciativa de um sapateiro português chamado José Nogueira, que teria iniciado a brincadeira em 1846. Essa versão foi alimentada principalmente pelo folclorista Vieira Fazenda em um livro publicado em 1904.
Entretanto, como observa Mattos, entre o relato de Vieira Fazenda, difundido a partir do início do século XX, e o suposto primeiro cortejo, os Zés Pereiras já eram descritos inúmeras vezes na imprensa da segunda metade do século XIX, sem qualquer menção ao sapateiro.
Eu acho que a introdução do Zé Pereira no Brasil é uma transposição coletiva. As pessoas do Norte de Portugal vieram e começaram a sair com os Zés Pereiras, assim como houve a transposição de outros folguedos, como os ranchos, exemplifica Mattos.
A marchinha que marcou época
O sucesso do Zé Pereira na cultura popular brasileira atingiu seu ápice em 1869, quando a Companhia Teatral Heller encenou a paródia Zé-Pereira Carnavalesco, na qual o comediante Francisco Correia Vasques cantava a famosa quadrinha:
- E viva o Zé Pereira
- Pois que a ninguém faz mal
- Viva a bebedeira
- Nos dias de carnaval
Há pesquisadores que acreditam que essa foi a primeira letra de música de carnaval composta no Brasil, com melodia sendo uma paródia da quadrilha francesa Pompiers de Nanterre. Outros historiadores, porém, atribuem a inauguração das músicas compostas especificamente para o carnaval a Chiquinha Gonzaga e seu Ó Abre-Alas, de 1899.
Herança viva no carnaval contemporâneo
No Rio de Janeiro, o Zé Pereira perdeu força no início do século XX, principalmente após as reformas urbanas de Pereira Passos e com o crescimento de outros folguedos, como ranchos, cordões e, posteriormente, as escolas de samba, que ganharam a preferência popular.
O espírito zombeteiro e irreverente da versão brasileira dessa brincadeira, entretanto, segue vivo, assim como a marchinha que leva seu nome, executada até hoje em blocos como o Cordão da Bola Preta e o Cordão do Boitatá, dois dos mais queridos do Rio.
Não tem como colocar um cortejo na rua sem saudar essa energia do carnaval, da brincadeira, do bloco de sujo, da alegria, da fantasia. Essa música é um ponto carnavalesco que todo mundo sabe cantar e, no momento em que a gente toca, todo mundo sabe que a brincadeira vai começar, diz o músico Kiko Horta, um dos fundadores do Cordão do Boitatá.
O Zé Pereira não apenas democratizou o carnaval, mas também deixou um legado duradouro na cultura brasileira, conectando tradições portuguesas com a inventividade local para criar uma festa verdadeiramente popular.