Sorocaba atinge sete anos sem desfiles de carnaval, patrimônio cultural em risco
Sorocaba (SP) completa, no carnaval de 2026, o sétimo ano consecutivo sem a realização dos desfiles das escolas de samba da cidade. O evento, que já reuniu milhares de pessoas e paralisava o trânsito local, agora permanece apenas na memória dos foliões. Até 2019, de forma proporcional aos grandes eventos do Anhembi, em São Paulo, e da Sapucaí, no Rio de Janeiro, a cidade vivia a agitação carnavalesca com fantasias elaboradas, carros alegóricos, samba no pé e a tensão das apurações.
Época de ouro e declínio
Os desfiles de escolas de samba em Sorocaba tiveram momentos memoráveis. Na última fase ativa, até 2019, a cidade contou com apresentações em múltiplos locais. Em 2014, nove agremiações participaram, incluindo Império do Parque das Águas, Furiosa Real e Estrela da Vila, com um público significativo. Em 2015, a Passarela do Samba no Parque das Águas abrigava milhares de espectadores, com arquibancadas e camarotes. No entanto, em 2016, um desfile foi cancelado devido à falta de autorização dos bombeiros, e as apresentações seguiram em locais variados até 2019, quando 11 escolas desfilaram na Avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes.
Nostalgia e críticas à gestão cultural
Angela Fiorenzo, referência no carnaval sorocabano, expressa saudosismo: "O carnaval de rua em Sorocaba vivia. Morreu." Ela destaca esforços de grupos como o Movimento Unidos do Samba para manter a tradição, mas lamenta que muitos aspectos sejam agora passado. Mazé Lima, ex-presidente da Escola 28 de Setembro, critica a Secretaria de Cultura: "Em questão de cultura, tenho vergonha. O certo era extinguir essa secretaria e passar o dinheiro para a educação."
Impacto econômico e turístico
Sergio Monteiro, presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), enfatiza as perdas: "É o mais importante movimento cultural, 100% nacional, e uma grande indústria do turismo." Ele ressalta que o carnaval movimenta setores como confecção de fantasias, hospedagem e alimentação, gerando economia local.
Controvérsias políticas e legais
Desde 2021, o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos) afirmou que não investiria dinheiro público no carnaval, priorizando a saúde, incluindo a construção de um hospital municipal na zona norte. No entanto, esse hospital ainda não saiu do papel, e a Polícia Federal investiga contratos na área de saúde com suspeita de corrupção, envolvendo o prefeito. Paradoxalmente, uma lei municipal de 2021 declara os desfiles como Patrimônio Cultural Imaterial, visando preservar uma tradição de mais de 80 anos.
Futuro incerto e legado
Com a ausência de desfiles em Sorocaba, escolas como a Mocidade Independente agora desfilam em cidades vizinhas como Salto. Marcelo Mello, presidente da Associação Cultural de Samba de Sorocaba (Acusa), critica a falta de vontade política: "Desde o governo Manga, a prefeitura não quer fazer o desfile." Ele defende a necessidade de criar um legado para as novas gerações, mantendo o carnaval acessível a todos. A Secretaria de Cultura declarou interesse na retomada, mas condiciona-a à organização dos grupos e parcerias privadas, citando pendências financeiras judiciais que impedem o uso de verba pública.
