Foliões se preparam o ano todo para o carnaval de rua de São Paulo
O carnaval de rua de São Paulo não se resume apenas aos dias de folia. Muito antes dos blocos ocuparem as avenidas e ruas da cidade, há pessoas comuns que investem meses, e até anos, em aprendizado e treinamento para fazer a festa acontecer com brilho e energia. São foliões que deixam de ser apenas espectadores para se tornarem protagonistas ativos, assumindo papéis como músicos, pernaltas, organizadores e referências visuais dos cortejos.
Aprender um instrumento musical do zero, fortalecer o corpo para horas seguidas de desfile ou superar o medo de cair a metros do chão faz parte da rotina dedicada de quem decide participar do carnaval de forma intensa e engajada. Essa preparação meticulosa revela um lado menos conhecido da maior festa popular do Brasil, onde a paixão pela cultura se traduz em compromisso e disciplina.
Da arquibancada para a bateria: a transformação de uma foliã
Jessica Cristina Marques, coordenadora de pós-produção no cotidiano, hoje toca caixa em dois blocos paulistanos: o Bloco 77, dedicado ao punk rock, e o Bloco Skaravana, pioneiro na introdução do ska jamaicano ao carnaval de rua brasileiro. Seu caminho até a bateria começou nas arquibancadas improvisadas das ruas, onde admirava os músicos em ação.
"Eu sempre fui fã do Bloco 77, achava muito legal ver a galera tocando, se divertindo. Sempre tive vontade de participar", relata Jessica. A oportunidade surgiu em 2019, quando se aproximou do Skaravana. Sem saber tocar nenhum instrumento, ela aceitou o desafio de explorar habilidades musicais nos ensaios do bloco.
Ela iniciou pelo afoxé, um instrumento de percussão mais simples, aprendido às pressas para o carnaval de 2020. A pandemia interrompeu os planos, mas, com a retomada dos ensaios no final de 2022, Jessica comprou uma caixa e passou a treinar seriamente. Atualmente, sua rotina inclui dois ensaios semanais, cada um com cerca de duas horas e meia, além de preparação física intensiva.
"Tocar quatro horas seguidas no cortejo é bem exaustivo. Em dezembro, eu intensifico a academia para aguentar", explica. Para ela, estar no meio do bloco transforma completamente a relação com o carnaval. "Quando você está tocando, a vibração é muito forte. Ver as pessoas felizes por causa da música que você está fazendo é uma sensação muito satisfatória. É uma festa popular, acessível, feita na rua."
Sopros, disciplina e fôlego: a dedicação de um psicólogo músico
A mesma curiosidade que levou Jessica à bateria inspirou o psicólogo Arthur Gonçalves a buscar um instrumento de sopro. Admirador do carnaval desde a infância, ele começou a frequentar blocos e fanfarras a partir de 2016, quando o carnaval paulistano ganhou força significativa. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, o carnaval daquele ano reuniu 1 milhão de pessoas e 335 blocos nas ruas.
Em menos de uma década, a festa em 2025 contou com 16 milhões de foliões e 601 blocos oficiais. Para este ano, a estimativa é de que 627 blocos desfilem para aproximadamente 16,5 milhões de participantes. "Eu olhava os músicos tocando e ficava admirado com a dedicação, com a organização, tudo movido pelo prazer de divertir uma multidão", recorda Arthur.
Em 2021, ele decidiu comprar um trombone e se inscrever na oficina de sopros da Espetacular Charanga do França. O início foi desafiador. "Nos primeiros meses, o máximo que eu conseguia era fazer barulho e irritar os vizinhos", brinca. Com três meses de treino diário, conseguiu arranhar as primeiras notas; com seis meses, passou a tocar músicas completas.
Hoje, ele estuda o instrumento de quatro a cinco vezes por semana ao longo do ano. Às vésperas do carnaval, o treino se intensifica. "Preciso manter a embocadura e os pulmões afiados", detalha. Para Arthur, tocar no meio do bloco é um estado de entrega total. "É um estado de flow. A noção de tempo se perde. Dezenas de instrumentos pulsando no meio da rua criam um delírio coletivo de prazer e adrenalina."
Perna de pau: mais do que um efeito visual, uma ferramenta de organização
Além da música, outra habilidade que chama atenção nos blocos de rua é a perna de pau. Esta modalidade se consolidou como linguagem artística no teatro popular, especialmente entre os séculos XVIII e XIX. No carnaval, está ligada à tradição dos cortejos de rua e blocos alternativos.
A artista e professora Patricia Maíssa, que oferece aulas específicas para o carnaval, enxerga na prática muito mais do que um simples efeito visual. "A perna de pau encanta, traz identidade estética e energia para o bloco, mas também organiza", esclarece. Do alto, os pernaltas auxiliam a orientar o público, abrir caminhos e indicar o deslocamento do cortejo.
Segundo Patricia, aprender a andar de perna de pau exige força muscular, resistência cardiovascular e consciência coletiva. "É uma atividade vulnerável. A gente está em cima de dois pauzinhos, em meio a uma multidão. Nunca estamos sozinhos." O curso dura, em média, oito semanas, mas ela ressalta que o domínio real só vem com meses de prática e vivência nos blocos.
"Andar na perna de pau não é ficar equilibrado. É subir guia, enfrentar buraco, dançar, performar e interagir com o público", afirma. A procura por aulas cresce após o carnaval, impulsionada pelo encantamento de quem observa os pernaltas nas ruas. "O carnaval é o motor dessa formação artística", resume.
Experiência transformadora: do desejo à realização nas alturas
Aluna de Patricia, Ana Carolina Nascimento levou cerca de seis meses de preparação até sair pela primeira vez na perna de pau. Para ela, a experiência preencheu um desejo antigo de viver o carnaval intensamente. "Eu sempre quis fazer parte de forma ativa, não só estar ali no meio", conta.
Do alto, ela passou a enxergar o bloco como um todo. "A gente vê briga, obstáculos, consegue ajudar a organizar." Ana descreve a perna de pau como um alter-ego: "É como subir no palco. Vem uma energia diferente, uma brincadeira, uma interação com o público". A segurança, segundo ela, vem com o tempo — e com aprender a cair. "A gente aprende a cair antes mesmo de subir. O medo existe, mas junto com uma segurança corporal."
A sensação é similar para Heloisa Aun, outra aluna, que vê na perna de pau uma forma de pertencimento cultural. "Eu entendi que estou ajudando a construir a história do carnaval em São Paulo. Isso dá um orgulho danado."
Carnaval como compromisso coletivo e cultural
Por trás dos desfiles que tomam as ruas, há meses de ensaio, preparo físico, estudo e trabalho coletivo. Músicos, pernaltas, organizadores e apoiadores formam uma engrenagem essencial que vai muito além da simples diversão momentânea.
"Estar em um bloco não é só entreter foliões", resume o músico Arthur Gonçalves. "É pertencer a um coletivo dedicado a fazer pulsar a cultura brasileira." Essa dedicação anual transforma o carnaval de São Paulo em uma manifestação viva e dinâmica, onde cada participante ativo contribui para a magia e a tradição da festa mais popular do país.