Portela 2026: Enredo revela mistério do Príncipe do Bará e ressurreição da coroa negra
A Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, prepara seu desfile para 2026 com um enredo profundamente simbólico e histórico. A agremiação será a terceira a desfilar no domingo, com início previsto entre 0h55 e 1h15, levando para a avenida a narrativa intitulada “O mistério do príncipe do Bará – a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. Este tema promete mergulhar nas raízes africanas do Sul do Brasil, destacando figuras emblemáticas e tradições religiosas que moldaram a cultura local.
A jornada do Negrinho do Pastoreio e a descoberta da coroa
A história começa na escuridão dos Pampas, onde o Negrinho do Pastoreio cavalga com uma vela acesa, iluminando caminhos esquecidos e guiando aqueles que perderam algo precioso. Em suas andanças, ele encontra uma coroa escondida na fumaça da memória, um objeto não apenas físico, mas carregado de dor, luta e realeza negra. Sem compreender totalmente seu significado, o Negrinho leva a coroa até Bará, o orixá dos caminhos e encruzilhadas, que guarda os segredos dos começos e recomeços.
Bará pede que o Negrinho conte tudo o que sabe, e assim surge a história de Custódio Joaquim de Almeida, também conhecido como Osuanlele Okizi Erupê. Originário do Benin, ele era um príncipe africano coroado em sua terra natal, um líder de resistência que lutou pela liberdade de seu povo. Perseguido e exilado, seu destino, revelado pelos búzios, o levou ao Brasil. Após uma travessia marítima árdua, ele chegou primeiro à Bahia, passou pelo Rio de Janeiro e, finalmente, estabeleceu-se no Rio Grande do Sul.
A resistência e o legado do príncipe nos Pampas
Nos Pampas, Custódio se tornou uma figura poderosa, atuando como curandeiro, conselheiro e organizador comunitário. Ele era visto como o príncipe dos pobres e rei dos esquecidos, reunindo um povo negro recém-liberto que precisava sobreviver em um ambiente muitas vezes hostil. Sua casa era um ponto de encontro, seu quintal abrigava tambores, e sua fé unia diferentes nações africanas, como Oyó, Jeje, Nagô, Cambinda e Ijexá.
Dessa união nasceu o Batuque, uma religião do Sul marcada pela resistência, axé e negritude. Após sua morte, o legado de Custódio permaneceu vivo nos cruzeiros de Bará, no Mercado, nos terreiros, nas procissões e na Igreja do Rosário. Sua presença ecoa no som do tambor de sopapo, nos estandartes, nos reinados negros e nas festas que celebram a cultura afro-brasileira.
O segredo revelado e a coroa como semente do futuro
Bará então revela ao Negrinho que a coroa não é apenas um artefato do passado, mas uma semente para o futuro. O verdadeiro príncipe de agora é o próprio Negrinho e todas as crianças negras que carregam a chama da memória, acendendo velas para manter viva a história. A Portela, através deste enredo, mostrará um Rio Grande africano, um Sul negro que abre caminhos para todo o Brasil, destacando a resiliência e a contribuição cultural da comunidade afrodescendente.
O samba-enredo, composto por autores como Val Tinho Botafogo, Raphael Gravino e outros, e interpretado por Zé Paulo Sierra, celebra essa narrativa com versos como “A Portela reunida carregada no dendê, sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar o príncipe herdeiro da coroa do Bará!”. A letra evoca elementos religiosos e históricos, reforçando a mensagem de resistência e fé.
Ficha técnica e detalhes da apresentação
A Portela, fundada em 11 de abril de 1923, mantém suas cores azul e branco, sob a presidência de Junior Escafura e a direção de carnaval de André Rodrigues. A comissão de frente será comandada por Cláudia Mota e Edifranc Alves, com Zé Paulo Sierra como intérprete e Vitinho como mestre de bateria. Este desfile promete ser uma homenagem vibrante à história e à cultura negra, resgatando tradições que continuam a inspirar gerações.