Imperatriz Leopoldinense transforma obra de Ney Matogrosso em manifesto estético e político no Carnaval 2026
Obra de Ney Matogrosso vira manifesto estético e político na Imperatriz

Imperatriz Leopoldinense transforma obra de Ney Matogrosso em manifesto estético e político no Carnaval 2026

A Imperatriz Leopoldinense está preparando um desfile impactante para o Carnaval de 2026, com um enredo que homenageia Ney Matogrosso de maneira inovadora. Diferente de abordagens tradicionais, o carnavalesco Leandro Vieira optou por fugir de uma narrativa cronológica e biográfica, focando na potência estética, política e performática construída pelo artista ao longo de mais de cinco décadas.

Uma homenagem além da biografia

Leandro Vieira explica que esta é a terceira vez que ele realiza uma homenagem a uma personalidade musical sem adotar uma estrutura biográfica. "Nunca me interessou essa ideia de contar a vida em ordem", afirma o carnavalesco. O ponto de partida do desfile é a obra de Ney Matogrosso entendida como um manifesto abrangente, que vai além da música para incluir dimensões visuais, corporais e políticas.

Para Vieira, o artista transformou seu corpo e suas roupas em discursos poderosos, utilizando a imagem como ferramenta de expressão e enfrentamento. "Como poucos intérpretes, ele entendeu o corpo e aquilo que veste como manifestação política e estética. Ninguém se vestiu como Ney Matogrosso ao longo da vida inteira", destaca.

Transgressão como linguagem central

Desde as performances com os Secos & Molhados nos anos 1970 até as apresentações mais recentes, Ney Matogrosso construiu personagens que desafiaram normas de gênero, comportamento e moral em um Brasil marcado pela ditadura militar. "Isso tudo explode visualmente e musicalmente nos anos 70, em um país conservador. Essa imagem ganha força porque vira símbolo de transgressão", analisa o carnavalesco.

No desfile, essa força será organizada em setores que traduzem a obra do artista em imagens reconhecíveis. Canções icônicas como "Rosa de Hiroshima", "Bandido", "Feitiço" e "Homem com H" ajudarão a construir um vocabulário visual que mistura androginia, animalidade, erotismo e poesia.

Ambiguidade e provocação no figurino

A transgressão não se concentrará em um único momento do desfile, mas atravessará toda a apresentação, inclusive nas fantasias da comunidade. "Não existe roupa de homem e roupa de mulher. Todas as roupas permitem corpos com signos misturados. Nudez também é discurso político", afirma Leandro Vieira.

Essa ambiguidade será central no projeto visual, com figurinos que podem reunir referências de cangaceiro e vedete, meia arrastão e símbolos de uma masculinidade caricata. Para o carnavalesco, trata-se de deboche e provocação deliberados, representando o oposto do normativo.

Diálogo com a transformação da escola

O enredo também dialoga com o momento vivido pela própria Imperatriz Leopoldinense, que, segundo Leandro Vieira, passa por um processo de transformação desde 2020. O conceito de "camaleão" traduz tanto a trajetória do carnavalesco na escola quanto o sentimento de uma Imperatriz que mudou e deixou para trás a imagem de escola "certinha" da Sapucaí.

"Carnaval é transgressão. Ney Matogrosso é transgressão. Ele sempre foi um manifesto político, estético e de liberdade", resume Vieira, destacando a sintonia entre o homenageado e a essência do carnaval.

Processo colaborativo e promessa de desfile

A escolha de Ney Matogrosso como homenageado só foi confirmada depois que o artista aceitou ouvir a proposta. O convite foi direto e, segundo Leandro, veio acompanhado de um pedido especial: que Ney não lhe negasse o direito de sonhar. A ideia foi apresentada, aprovada e acolhida com entusiasmo.

Na Avenida, a promessa é de um desfile em que o componente não apenas veste a fantasia, mas incorpora o espírito do homenageado. O samba, segundo o carnavalesco, fará o corpo cantar, e o corpo, ao vestir a fantasia, passará a integrar esse imaginário múltiplo e libertário.

A Imperatriz Leopoldinense será a segunda escola a se apresentar no domingo (15), com início previsto entre 23h20 e 23h30. A mensagem final é clara: emoção, delírio e liberdade. "A Imperatriz não é mais a certinha da Ramos", conclui Leandro Vieira, sinalizando uma nova era para a agremiação.