Carnaval 2026 do Rio implementa transformações históricas no sistema de julgamento
O carnaval do Rio de Janeiro está prestes a viver uma revolução em seu processo de avaliação. Para o desfile do Grupo Especial de 2026, novas regras de julgamento e apuração foram estabelecidas, marcando uma mudança significativa na tradição carnavalesca. As alterações, solicitadas pelas próprias escolas de samba, buscam modernizar a lógica de avaliação, expandir os critérios analisados pelos jurados e, principalmente, criar uma conexão mais próxima entre o público e o modelo de pontuação.
Cabines espelhadas exigem apresentação em 360 graus
Uma das inovações mais impactantes será a implantação das chamadas cabines espelhadas na Marquês de Sapucaí. Pela primeira vez na história, dois grupos de jurados ficarão posicionados frente a frente na avenida. Nove julgadores avaliarão os desfiles a partir do setor 6, enquanto outros nove ocuparão o lado oposto, no setor 7.
Essa configuração altera profundamente a dinâmica de apresentação das escolas, especialmente em quesitos tradicionalmente direcionados, como mestre-sala e porta-bandeira e comissão de frente. Durante décadas, o casal de mestre-sala e porta-bandeira se apresentava prioritariamente para um único lado da avenida, onde estavam concentrados os jurados. Agora, a apresentação precisa ser concebida em 360 graus, contemplando toda a plateia.
Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, comentou sobre a adaptação necessária. "Não dê as costas para os julgadores, risosos, imagina que tudo mudou em 2026 no próximo carnaval. Teremos essa novidade de contemplar o público que tanto merece não deixando de respeitar os julgadores, claro buscando as notas máximas", afirmou.
Já Phelipe Lemos, mestre-sala da Imperatriz Leopoldinense, destacou o desafio criativo. "Tirou todo mundo da zona de conforto na verdade, né? Agora a gente tem que usar nossa inteligência, usar nossa criatividade. Vai ser uma disputa muito bacana, assim. Logicamente o novo assusta, mas o novo também inspira", disse.
Expansão para 26 subquesitos e aumento de jurados
Além da reconfiguração espacial, o sistema de pontuação passa por uma expansão considerável. A comissão de frente se torna o quesito com mais subdivisões, evoluindo de apenas indumentária e apresentação para incluir também concepção da ideia e criatividade na avaliação.
No total, os nove quesitos de julgamento agora abrangem 26 subquesitos. Por exemplo:
- O casal de mestre-sala e porta-bandeira será avaliado por fantasia, coreografia e harmonia.
- A bateria passará a ser julgada pela manutenção da cadência, conjugação dos instrumentos, criatividade e versatilidade.
Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), enfatizou o peso da criatividade. "O critério criatividade em muitos dos quesitos ele também é exaltado, então não jogar só com o regulamento embaixo do braço também é um ponto fundamental em vários dos quesitos que estão sendo julgados", explicou.
Outra mudança significativa é o aumento no número de julgadores, que sobe para 54. Contudo, na prática, continuarão valendo as notas de 36 jurados, pois dois avaliadores de cada quesito serão excluídos por sorteio antes da apuração. Segundo a Liesa, essa medida visa formar um banco mais amplo de jurados com capacidade de avaliar o carnaval para além de seus currículos profissionais.
Justificativa obrigatória e resgate da tradição
A partir de 2026, até mesmo as notas máximas de 10 precisarão ser justificadas pelos jurados, aumentando a transparência do processo. As escolas terão liberdade para decidir como se adaptarão às novas regras, desenvolvendo metodologias próprias.
Marcelo Misailidis, coreógrafo da comissão de frente da Mocidade, vê a mudança como um resgate de características tradicionais. "Olha, eu acho que fundamentalmente isso restitui ao desfile uma característica muito importante, que é cortejo porque realmente não faz sentido você trazer todo um espetáculo e você deslocar ele completamente o sentido privilegiando suas ações especificamente para um setor", afirmou.
"Então essa cabine espelhada talvez seja assim um primeiro gesto para que as pessoas comecem a se sentir mais à vontade com que o carnaval deve ser aberto, popular, democrático", completou.
O modelo de avaliação vem passando por ajustes desde o carnaval de 2025, quando as notas passaram a ser fechadas ao final de cada noite de desfile, e não mais apenas após a apresentação da última escola. As mudanças para 2026 representam o ápice dessa evolução, prometendo um espetáculo mais integrado e tecnológico.
Gabriel David finalizou com entusiasmo: "Imaginem esse espetáculo 360 graus com iluminação moderníssima, com esse som também que é uma inovação. Viva o samba, viva o carnaval do Rio de Janeiro".