Neste domingo (22), a Associação dos Catraieiros da Vila de Alter do Chão (ACVAC), localizada em Santarém, no oeste do Pará, viverá um momento histórico. Durante a abertura do Festival da Catraia, edição de 2026, a entidade receberá oficialmente a segunda mulher catraieira da vila, um feito que ocorre quase 46 anos após a criação da associação, que atualmente reúne cerca de 100 associados.
Legado familiar e motivação feminina
Irivanilda Alves, de 48 anos, cresceu observando o pai desempenhar com orgulho o ofício de catraieiro, mesmo em uma época em que a atividade ainda não era reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Santarém. Ter acompanhado de perto o trabalho paterno foi uma das principais motivações para que a atleta de futebol decidisse seguir a mesma profissão.
"A minha principal motivação foi dar continuidade no legado do meu pai, que foi catraieiro e criou 9 filhos com o trabalho da catraia. Além disso, incentivar outras mulheres e meninas a tomar coragem e virar catraieira para defender o rio", afirmou Irivanilda Alves, que há 6 anos é membro da ACVAC.
História e importância da associação
Criada oficialmente em 22 de fevereiro de 1980, a associação surgiu a partir da prática espontânea de canoeiros que atravessavam moradores e visitantes muito antes da formalização da entidade. A condução era realizada em catraias de madeira, com remos artesanais esculpidos a partir de espécies como tapiririca, marupá e envira-preta, saberes que foram transmitidos entre gerações.
Ao longo das décadas, a atividade se consolidou como uma fonte de renda sustentável, mobilidade e integração social, tornando-se também um exemplo de empreendedorismo popular e turismo de base comunitária, com baixo impacto ambiental e forte vínculo territorial. Para os catraieiros, a embarcação vai além do transporte: representa memória, pertencimento e identidade cultural.
"Começou como brincadeira de menino na beira do rio. A gente atravessava as pessoas por ajuda, depois virou trabalho. Hoje é o sustento de muitas famílias e parte da nossa história. A catraia é a nossa vida", relatou Gregório de Faria, catraieiro e um dos associados mais antigos.
Organização e desafios atuais
Atualmente, além dos 100 associados, a entidade reúne dezenas de trabalhadores, formando uma rede comunitária que garante o transporte diário de passageiros e o funcionamento da economia local. Além do serviço de travessia, a associação atua de forma autônoma na definição de regras coletivas, manutenção das embarcações e realização de ações comunitárias, como mutirões de limpeza da praia e apoio a atividades sociais.
O modelo de organização, baseado na cooperação e no cuidado com o território, levou ao reconhecimento dos catraieiros, em 2022, como Patrimônio Cultural de Natureza Material e Imaterial do município. No entanto, o grupo ainda enfrenta desafios significativos, como a falta de políticas públicas voltadas ao fortalecimento do turismo de base comunitária e à melhoria das condições de trabalho.
Festival da Catraia 2026
O Festival da Catraia é um evento que comemora os 46 anos da Associação dos Catraieiros da Vila de Alter do Chão, organização responsável por manter viva uma das mais tradicionais formas de transporte fluvial da região do Rio Tapajós. Em dois dias de programação, 22 e 28 de fevereiro, o festival contará com corrida de catraias, homenagens aos mestres e mestras do rio, torneios de futebol, shows musicais e atividades culturais abertas ao público.
O evento celebra o trabalho cotidiano de homens e mulheres que garantem a travessia entre as margens da Ilha do Amor e Lago Verde. O Festival da Catraia surge como uma estratégia de valorização cultural e fortalecimento institucional, com apoio do Instituto Regatão Amazônia, por meio das mentorias do Programa de Atiçamento Cultural.
"O festival nasce para reconhecer os catraieiros como trabalhadores da cultura e guardiões do território. Apoiar essa associação é fortalecer uma economia comunitária viva, que cuida do rio, gera renda local e mantém saberes tradicionais em movimento", destacou a coordenadora executiva do Instituto Regatão Amazônia, Marlena Soares.
Programação detalhada do festival
22 de fevereiro | Terminal dos Catraieiros – Beira do rio (aberto à comunidade)
- 7h – Café da manhã
- 8h às 10h – Corrida de catraias
- Masculino: 500m (tilheiro ao terminal)
- Feminino: 300m (depósito ao terminal)
- 10h – Premiação (R$ 300 | R$ 200 | R$ 100)
- 10h30 – Homenagens e encerramento
28 de fevereiro | Sede da Associação dos Catraieiros (Rua Pôr do Sol, nº 3 – Bairro Perfu – Alter do Chão)
- 7h – Alvorada e salva de fogos
- 8h – Parabéns à Associação e café da manhã
- 16h – Início da festa e torneio de duplas/pênaltis (prêmio: 1 porco)
- Futebol amistoso
- 18h – Luso Brasil x Catraia (até 35 anos)
- 19h – Santo Antônio x Catraia (Master 35+)
- 20h – Flactraia x Vascatraia (feminino)
- Shows (16h às 4h): Fabricio Ferraz | Jefinho Voz + Roney e Banda | Roger Rodrigues | DJ Allana
Para mais informações, os interessados podem entrar em contato com Antônio (93) 99209-9629 ou Jaimenson (93) 99195-1738.



