Grande Rio mergulha na lama dos manguezais para celebrar o Manguebeat na Sapucaí
A Acadêmicos do Grande Rio prepara um desfile ousado e profundamente cultural para o carnaval de 2026, levando o Manguebeat para a avenida com uma proposta que vai além do entretenimento. A escola de samba de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, escolheu este movimento nascido em Pernambuco nos anos 1990 como eixo central de seu enredo, prometendo uma apresentação rica em simbolismo, consciência social e reflexão sobre as origens culturais brasileiras.
Antônio Gonzaga estreia solo no Grupo Especial com projeto audacioso
À frente desta empreitada está o carnavalesco Antônio Gonzaga, que assume pela primeira vez sozinho a responsabilidade por um carnaval no Grupo Especial. Sua chegada à Grande Rio é vista internamente como o início de um novo ciclo criativo, marcado por experimentação e renovação linguística sem perder a identidade tradicional da escola.
"A Grande Rio vem sem medo. É uma escola com outra roupagem, outra linguagem, mas mais uma vez comprometida a dar um banho de cultura na Avenida. A comunidade está muito feliz, muito leve e muito confiante", afirma Gonzaga, destacando o clima positivo nos preparativos.
Enredo vai além de Chico Science para explorar raízes do movimento
O enredo inspirado no Manguebeat pretende ir além dos nomes mais conhecidos, como Chico Science e Nação Zumbi, para mergulhar nas origens culturais que alimentaram o movimento. Gonzaga explica que o grande desafio é expandir a compreensão sobre o Manguebeat, mostrando como ele se perpetua nas novas gerações.
"O grande desafio é tirar a ideia de que o Manguebeat é só o que chegou mais forte no Sudeste. A gente quer entender as raízes desse movimento e de que maneira ele se perpetua até hoje", detalha o carnavalesco, prometendo uma abordagem profunda e respeitosa.
Espiritualidade e ancestralidade marcam abertura do desfile
Visualmente, o desfile começa com um pedido de licença ao sagrado, estabelecendo um tom espiritual desde o início. A abertura será marcada pela ancestralidade dos manguezais, com forte presença simbólica e cromática, especialmente na cor roxa.
"A gente pede licença a Nanã para entrar nesse grande reino sagrado da lama e dos manguezais. O início tem ancestralidade, tem roxo, tem espiritualidade", revela Gonzaga sobre esta parte do desfile que considera seu "xodó" criativo.
Personagens do mangue e ritmos tradicionais ganham destaque
Na sequência, o enredo apresentará os personagens que vivem às margens dos mangues:
- Catadores de caranguejo
- Pescadores tradicionais
- Lavadeiras
Antes de avançar para os ritmos que formam a base cultural do movimento, incluindo:
- Maracatu
- Coco
- Cavalo-marinho
- Caboclinhos
"Tudo isso é o adubo cultural que fez nascer essa grande potência que é o Manguebeat", afirma o carnavalesco sobre esta rica mistura de influências.
Caranguejo com cérebro simboliza transformação social
O desfile chega então aos grandes expoentes do movimento e ao conceito central: o caranguejo com cérebro, criação de Fred 04 que sintetiza a força transformadora que nasce da lama. Para Gonzaga, esta imagem representa perfeitamente a proposta do enredo.
"Essa ideia do caranguejo com cérebro mostra que o que vem da lama é o que pensa uma nova sociedade", resume o carnavalesco, conectando o símbolo à capacidade de reinvenção e crítica social.
Paralelo entre periferias de Recife e Duque de Caxias
Na parte final, a Grande Rio traça um paralelo direto entre as periferias de Recife, berço do Manguebeat, e de Duque de Caxias, sede da escola. Esta aproximação permite conectar o discurso do movimento pernambucano com outras manifestações culturais urbanas.
"A gente entende o Manguebeat como um movimento de margem, de periferia. E faz esse encontro com o samba, com o funk, com o hip hop. A gente nasce da mesma lama. A lama não é abandono, não é sujeira. A lama é fonte de vida, é adubo cultural", explica Gonzaga sobre esta importante conexão.
Ambição e simbolismo na preparação para 2026
Vice-campeã no último carnaval, a escola encara 2026 com ambição renovada. Gonzaga admite sonhar alto, mas com os pés no chão: "Eu sonho com a Grande Rio campeã e trabalho muito para isso. É um projeto grande, audacioso. Se a gente conseguir colocar na Avenida tudo o que está sonhando, vai ser muito feliz."
O carnavalesco também destaca o peso simbólico de sua posição: "Ser um dos mais jovens e um dos poucos carnavalescos pretos nesse lugar é importante. Me sinto muito honrado e muito realizado."
Samba-enredo sintetiza espírito do desfile
No samba-enredo, Gonzaga aponta o verso "Eu também sou caranguejo" como resumo do Manguebeat, mas destaca especialmente a parte final que cita Paulo Freire como um dos momentos mais fortes da obra. A escola será a segunda a desfilar no último dia de apresentações do Grupo Especial, levando para a Sapucaí a mensagem de que da lama brotam cultura, transformação política e social.