O Vale do Anhangabaú, tradicional ponto do Centro de São Paulo, volta a ser palco de uma disputa entre a Prefeitura Municipal e promotores de eventos. A recente determinação da gestão Ricardo Nunes, que limita o término das atividades no local às 23h, está sendo desafiada pelo festival Time Warp Brasil, que anunciou apresentações até depois do amanhecer para sua próxima edição, marcada para os dias 1º e 2 de maio.
Conflito entre festa e regulamentação
Dedicado à música eletrônica, o evento reunirá 30 DJs ao longo de dois dias, prometendo intensidade e conexão total com o som. No entanto, essa programação noturna colide diretamente com a restrição imposta pela Prefeitura, motivada pelas recorrentes reclamações de moradores do entorno, cansados de conviver com o barulho fora de hora.
Um levantamento detalhado identificou que, no ano passado, 14 dos 20 eventos particulares realizados no Anhangabaú invadiram a madrugada, demonstrando um padrão de descumprimento. Na terça-feira, 3 de abril, a Prefeitura cobrou esclarecimentos urgentes da concessionária Viva o Vale, que administra a área pública desde 2021, já que a divulgação do Time Warp indica claramente uma programação incompatível com o limite de horário estabelecido.
Notificação e condicionantes
Na notificação oficial, a Secretaria Municipal das Subprefeituras deixou claro que "a autorização do evento estará condicionada ao cumprimento dos parâmetros e medidas mitigadoras de incomodidade apresentadas, bem como o cumprimento do horário". A empresa, procurada pela reportagem, não respondeu até a publicação deste texto, mantendo um silêncio que aumenta as incertezas sobre o desfecho da situação.
Vendas antecipadas e histórico de problemas
Curiosamente, mesmo sem as licenças municipais necessárias, os ingressos para o Time Warp 2026 já estão sendo vendidos desde dezembro. A meia-entrada para os dois dias de evento custa R$ 520 no lote atual, indicando uma confiança dos organizadores na realização do festival, apesar das pendências regulatórias.
O anúncio publicado no Instagram da festa promete "do primeiro pulso ao último amanhecer, construímos dois dias de intensidade, conexão e entrega total à música". Na edição do ano passado, o evento durou 12 horas, com encerramento às 8h de domingo, um horário que claramente viola a nova determinação municipal.
Multas e fiscalizações recentes
A Entourage, produtora responsável pelo Time Warp, é uma das principais parceiras da Viva o Vale e já levou diversos eventos de música eletrônica ao Anhangabaú nos últimos anos. O mais recente foi o show do DJ alemão Boris Brejcha, em dezembro, que resultou em uma fiscalização do Programa do Silêncio Urbano (Psiu).
Durante essa fiscalização, constatou-se que a emissão de ruídos estava acima dos limites permitidos, levando a uma autuação orientativa à Entourage. Dias depois, a Prefeitura de São Paulo autuou a Viva o Vale por causa do episódio, classificando-o como uma "infração contratual grave". A multa prevista é de 1% sobre o valor do contrato de concessão, que é de R$ 55 milhões, totalizando uma penalidade significativa.
Contexto jurídico e defesas apresentadas
A fiscalização ocorreu após determinação do Ministério Público de São Paulo, que já abriu dois inquéritos sobre a concessão do Anhangabaú após denúncias de poluição sonora. Em sua defesa prévia enviada à prefeitura, a Viva o Vale contestou a multa, alegando que a responsabilidade direta pelos ruídos é da produtora e que as medições do Psiu apresentaram falhas técnicas e metodológicas.
No documento, a empresa sustenta que adotou medidas de mitigação de ruído e que teve conduta "absolutamente irretocável" no caso. "Se é lícito e o Poder Concedente autorizou que o evento fosse promovido e realizado por terceiro, o que mais se poderia esperar da Viva Vale que não buscar assegurar, com cláusulas contratuais firmes e inequívocas, que aquele terceiro cumprisse as normas relativas à emissão de ruídos?", argumenta a defesa da concessionária.
Silêncio das partes envolvidas
O g1 solicitou um posicionamento à Entourage sobre a realização do festival Time Warp em maio, mas não obteve retorno até a publicação dessa reportagem. Esse silêncio, somado à falta de resposta da Viva o Vale, cria um cenário de incerteza sobre como será resolvido o impasse entre a vontade de realizar um grande evento cultural e a necessidade de respeitar as normas urbanas e os direitos dos moradores.
A situação ilustra um dilema comum em grandes cidades: como equilibrar a promoção de eventos culturais e de entretenimento com a qualidade de vida da população residente. Enquanto os fãs de música eletrônica aguardam ansiosos pela festa, os vizinhos do Vale do Anhangabaú temem novas noites de barulho e desconforto, aguardando uma solução que atenda a todos os interesses em jogo.