Tradição da Queima do Judas é Mantida Viva em Fábrica de Salvador Há Mais de 60 Anos
Fábrica em Salvador mantém tradição da queima do Judas há 60 anos

Fábrica em Salvador Preserva Tradição da Queima do Judas Há Mais de Seis Décadas

No coração do bairro do Pau Miúdo, em Salvador, uma fábrica dedicada à pirotecnia mantém viva uma tradição secular: a confecção de bonecos de "Judas", figuras que são ritualisticamente malhadas ou queimadas durante as celebrações da Semana Santa. Há mais de sessenta anos, esse estabelecimento transforma papel, goma e madeira em representações do apóstolo traidor, encomendadas por comunidades de diversas partes do estado da Bahia.

Uma Herança que Resiste ao Tempo

Fundada pelo mestre fabricante de fogos Florentino Moreira Sales, conhecido carinhosamente como "Florentino Fogueteiro", a fábrica passou a ser administrada por seus antigos ajudantes após seu falecimento em 2006. Fernando Encarnação, um dos sócios, relembra o pedido do fundador: "Ele fez um pedido para que a gente não deixasse morrer a tradição. E a gente tem tentado até hoje". Atualmente, cada boneco é vendido a partir de R$ 350, com preços variando conforme as características personalizadas solicitadas pelos clientes.

Os bonecos são verdadeiras obras de arte popular, adornados com uma variedade de peças de roupa, desde camisas de botão até uniformes de times de futebol. Nos pés, fogos de artifício são instalados, garantindo um espetáculo pirotécnico que complementa o ritual de queima ou malhação.

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Desafios e Transformações de uma Tradição Centenária

Apesar da dedicação dos artesãos, a tradição enfrenta um declínio gradual ao longo dos anos. Jean Neiva, outro sócio da fábrica, recorda que no passado chegou a entregar cerca de mil bonecos, número significativamente maior que as aproximadamente 400 encomendas registradas para este ano. "Graças a Deus, tem sido ótimo. A gente pensou que não seria esse ano", comemora Neiva, demonstrando alívio pela demanda ainda existente.

O historiador Jaime Nascimento analisa os fatores por trás dessa redução:

  • Queda da mobilização popular: Muitas pessoas preferem viajar durante o feriado, perdendo o convívio comunitário.
  • Diminuição da força do catolicismo: Mudanças nas práticas religiosas, como a substituição do jejum tradicional por banquetes na Sexta-feira Santa.
  • Falta de financiamento político: Apoio reduzido para eventos culturais tradicionais.
  • Crescimento de outras tradições: Práticas como o "baba de saia" ou "baba do vinho", jogos de futebol com homens vestidos de mulher, ganham espaço durante a Semana Santa.

"Isso foi mudando à medida que os hábitos da sociedade, no geral, foram se transformando. As pessoas já não falavam na Semana Santa, elas se preocupavam com o feriadão", reflete Nascimento.

Origens e Significados do Ritual

A tradição da queima do Judas tem raízes profundas no catolicismo e na influência portuguesa, embora não haja um registro exato de seu início. Realizado sempre no Sábado de Aleluia, o ritual na Bahia geralmente envolve a incineração dos bonecos, enquanto em outras regiões eles podem ser destruídos a pauladas.

"O que existe é o pensamento católico da condenação ao papel desempenhado pelo apóstolo Judas Iscariotes na traição a Jesus Cristo", explica Jaime Nascimento. "Durante os séculos, foi-se formando essa aversão à figura e sempre com a condenação e associação a coisas ruins". Curiosamente, no passado, ser canhoto era associado a Judas ou ao demônio, demonstrando como a figura foi estigmatizada.

Com o tempo, a prática evoluiu para incluir a colagem de rostos de pessoas indesejadas nos bonecos, como políticos ou criminosos, transformando o ritual em uma forma de crítica social. Além do boneco, um testamento fictício acompanha o rito, satirizando a distribuição dos "bens" de Judas e reforçando o caráter narrativo da tradição.

Apesar dos desafios contemporâneos, a fábrica do Pau Miúdo permanece como um bastião da cultura popular baiana, garantindo que a chama dessa tradição única continue acesa para as futuras gerações.

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