Daniela Mercury relembra decisão que transformou o Carnaval de Salvador há 30 anos
Daniela Mercury e a decisão que mudou o Carnaval de Salvador

Daniela Mercury e a revolução no Carnaval de Salvador há três décadas

A história recente do Carnaval de Salvador ganhou um capítulo decisivo há trinta anos, quando a cantora Daniela Mercury tomou uma decisão ousada: levar o Bloco Crocodilo para a Barra. Na época, essa aposta foi considerada arriscada, pois o circuito tradicional da festa era o Campo Grande e a Avenida Sete, vistos como o coração da folia baiana. A Barra, por sua vez, recebia apenas eventos alternativos e carecia de infraestrutura adequada, como iluminação pública.

Resistência e transformação no cenário carnavalesco

A decisão enfrentou resistência significativa. A Avenida Sete era um símbolo consolidado do Carnaval, mas Daniela percebia que o trajeto estava saturado. O trio elétrico ficava praticamente parado em congestionamentos, obrigando a artista a se apresentar por até oito horas seguidas, em condições que ela descreve como "completamente desumanas". Em 1996, apenas o Crocodilo desfilou na Barra durante os dias oficiais, abrindo caminho para que, nos anos seguintes, o circuito Barra-Ondina se consolidasse como o principal da cidade.

"Não tinha infraestrutura, mas avisei a cidade, avisei a prefeitura, pedi licença e desci. E hoje é o circuito mais importante da cidade", afirma Daniela Mercury. Desde então, o Bloco Crocodilo se tornou um dos maiores do Carnaval baiano, ao lado do Coruja, de Ivete Sangalo, e do Camaleão, de Bell Marques. A cantora transformou o trio elétrico em palco de experimentações artísticas, incluindo óperas carnavalescas, teatro musical, performances eletrônicas e encontros com bailarinos e DJs.

Trajetória artística e independência

O ano de 1996 também marcou o lançamento de "Feijão com Arroz", álbum que trouxe sucessos como "Nobre Vagabundo", "Rapunzel" e "À Primeira Vista". O disco é apontado como um dos mais importantes da carreira da artista, que recentemente completou 60 anos e acumula mais de quatro décadas de trajetória. Daniela mantém uma relação próxima com São Paulo desde 1992, quando fez um show no vão livre do Masp, reunindo cerca de 9 mil pessoas e causando bloqueios na Avenida Paulista.

Desde 2016, ela encerra o Carnaval paulistano com o bloco Pipoca da Rainha, que já reuniu mais de um milhão de foliões na Rua da Consolação. Segundo a cantora, o projeto é mantido com recursos próprios e sem cachê, refletindo sua crítica de que "governos ainda veem a arte como gasto, não como investimento". A empresária Malu Verçosa Mercury revela que o custo para colocar o bloco na rua pode chegar a R$ 650 mil, sem contar o cachê da artista.

Posicionamento político e propósito na arte

Daniela Mercury também mantém posicionamentos políticos públicos, mesmo reconhecendo possíveis prejuízos comerciais. "Faço isso por dever civil", afirma. Ela já se manifestou contra o governo de Jair Bolsonaro e participou de mobilizações contra propostas legislativas que considera prejudiciais à democracia. Em outubro, lançou "Cirandaia", álbum independente com 12 faixas, incluindo a música "É Terreiro", em parceria com Alcione, que homenageia mulheres e faz referência a Maria Padilha.

Para Daniela, a arte precisa ter propósito. "Há artistas e há entertainers. Fazer arte independente é muito mais difícil, mas é o caminho que escolhi", conclui. Ela destaca que quer falar sobre o que é ser mulher e denunciar a violência que cresce no país, reforçando seu compromisso com causas sociais e a expressão artística autêntica.