Do barracão à avenida: a jornada de criação de um samba-enredo
"Me dê a mão, me abraça. Viaja comigo pro céu. Sou gavião, levanto a taça. Com muito orgulho, pra delírio da Fiel." Esses versos icônicos do samba-enredo "Coisa Boa é Pra Sempre" ecoam há trinta anos, marcando a primeira vitória da Gaviões da Fiel no Grupo Especial em 1995. Mas o que transforma uma música em um hino atemporal, capaz de atravessar gerações e emocionar até quem não acompanha o carnaval? A resposta está em um processo longo, técnico e profundamente emocional que vai do barracão à avenida.
O enredo como ponto de partida
O primeiro passo na criação de um samba-enredo é a definição do enredo, o tema narrativo que a escola de samba escolhe para contar sua história no desfile. Elaborada pelo carnavalesco, a sinopse funciona como um roteiro detalhado, orientando todos os elementos do desfile, desde as alegorias até as fantasias. Zeca do Cavaco, compositor da escola Vai-Vai com sete títulos no Grupo Especial, explica que o compositor precisa mergulhar nesse material para transformar a história em verso e melodia. "O enredo vem antes da música", afirma Zeca, que destaca a importância de pensar no que os componentes da escola gostariam de cantar durante o desfile.
A arte da composição: letra e melodia em harmonia
Não existe uma fórmula mágica para compor um samba-enredo, mas alguns princípios são fundamentais. A letra deve ser clara, fácil de memorizar e permitir que milhares de pessoas cantem em uníssono. A melodia, por sua vez, precisa ter força para sustentar o canto do início ao fim, respeitando o andamento da bateria e o tempo do desfile. Janos Tsukalas, o Grego, autor do samba campeão da Gaviões da Fiel, revela que em seu processo criativo, letra e melodia nascem simultaneamente. "Eu faço a letra e, simultaneamente, faço a melodia. Só passo para a linha seguinte depois que a anterior estiver aprovada", conta Grego, que enfatiza o samba como o vértice da pirâmide em uma escola de samba.
Disputas internas e o custo da criação
Após a composição, os sambas são inscritos em disputas internas nas escolas, onde dezenas de músicas competem em eliminatórias. Para avançar, um samba deve atender a critérios como fidelidade ao enredo, força melódica, clareza emocional na letra, facilidade de canto e impacto na arquibancada. Somente o vencedor será cantado no desfile oficial. Zeca do Cavaco ressalta que esse processo envolve custos significativos, incluindo gravações, intérpretes e materiais de divulgação. "Para você colocar um samba numa escola de samba, é muito gasto", observa ele, mencionando que isso mudou a dinâmica das parcerias, com mais pessoas assinando composições para dividir os investimentos.
Do ensaio à eternidade: a emoção que perdura
Uma vez escolhido, o samba-enredo ganha uma gravação oficial e passa a ser ensaiado intensamente pela escola, circulando nos ensaios de rua e no Sambódromo do Anhembi. Para Zeca, a essência do samba-enredo reside na emoção. "Eu escrevo com o coração. Se você não tiver amor naquilo que você faz, vai ser uma coisa mecânica", declara. Grego complementa que a criação é um processo de tentativa e erro, exigindo persistência até que a música "feche" perfeitamente. Quando um samba atravessa gerações, ele deixa de ser apenas dos autores e se torna parte da memória coletiva da escola e do carnaval. "Você pode não saber quem escreveu, mas o samba, esse você nunca esquece", finaliza Zeca, destacando o legado duradouro dessas composições.