Centro Cultural Bom Jardim transforma vidas e fortalece protagonismo popular em Fortaleza
Centro Cultural Bom Jardim fortalece protagonismo popular em Fortaleza

Centro Cultural Bom Jardim transforma vidas e fortalece protagonismo popular em Fortaleza

Na região sudoeste de Fortaleza, conhecida como Grande Bom Jardim, projetos culturais e iniciativas sociais estão redefinindo o território, transformando-o em um celeiro de artistas e um exemplo de mobilização comunitária. A área, que engloba bairros como Bom Jardim, Granja Lisboa, Granja Portugal, Siqueira e Bonsucesso, enfrenta desafios históricos de infraestrutura e possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inferior a 0,500, considerado muito baixo. No entanto, a força da produção cultural local vem se destacando como um motor de transformação e identidade.

Cultura como política pública e transformação social

Um dos principais símbolos dessa mudança é o Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), inaugurado em 2006 como o primeiro equipamento cultural público de Fortaleza fora do eixo turístico. Desde então, o espaço se consolidou como um polo de formação artística e convivência comunitária, recebendo mais de 50 mil pessoas anualmente. O CCBJ oferece cursos gratuitos de teatro, dança, música, audiovisual e cultura digital, atendendo desde crianças a partir dos 11 anos até adultos em formação técnica.

Segundo o superintendente do CCBJ, Marcos Levi, o objetivo vai além da capacitação técnica. "O Centro Cultural é do Grande Bom Jardim, para o Grande Bom Jardim e com o Grande Bom Jardim", afirma ele, destacando a valorização dos saberes locais e o estímulo ao protagonismo dos moradores. Além dos cursos, o CCBJ mantém uma programação cultural gratuita com shows, espetáculos e oficinas abertas ao público, ajudando a afastar crianças e jovens da violência urbana.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O impacto econômico também é significativo: cerca de R$ 1 milhão é investido no território por meio de bolsas culturais, valor que é revertido em consumo dentro da própria comunidade. O CCBJ ainda desenvolve ações de cidadania, acolhendo e encaminhando casos de vulnerabilidade social em articulação com redes de proteção. "Nossas prioridades são claras: o território do Grande Bom Jardim, a comunidade negra, o público LGBTQIAPN+ e pessoas em vulnerabilidade", reforça Levi, acrescentando que a maioria dos profissionais contratados vive na região, muitos deles ex-alunos do centro.

Audiovisual que nasce da periferia e fortalece a identidade local

Outra iniciativa emblemática é a Bom Jardim Produções, uma produtora audiovisual criada a partir de um coletivo local em 2019, após surgir no teatro em 2003. O grupo produz curtas, médias e longas-metragens, além de vídeos institucionais, com a proposta de contar histórias do território a partir da perspectiva de quem vive na região. Entre as produções estão o longa "Botija", inspirado em uma história real, e o filme infantil "Os Maluvidos", que envolveu moradores, escolas e comerciantes locais.

Além das produções, a Bom Jardim Produções investe na formação de novos profissionais, com integrantes ministrando cursos gratuitos e atuando como facilitadores no CCBJ. O fundador, Josenildo Nascimento, explica que a produtora surgiu para enfrentar a falta de oportunidades no setor. "Nossa ideia é fazer com que essas produções do território vão para longe, que as pessoas conheçam o Bom Jardim pela capacidade de produção cultural que ele tem, por esse universo cultural... porque aqui é um celeiro artístico", pontua.

Saúde mental, cultura e pertencimento: uma abordagem integrada

O Movimento Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, criado em 1996, é outro exemplo de transformação. Inicialmente focado em oferecer acolhimento a famílias em situação de vulnerabilidade e sofrimento emocional, o movimento ampliou sua atuação para áreas como arte, cultura e geração de renda. Atualmente, desenvolve atividades como terapia comunitária, oficinas de arte, projetos com crianças e adolescentes e ações de valorização cultural.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Uma das frentes é a Casa AME (Arte, Música e Espetáculo), que trabalha com arteterapia por meio de atividades manuais como bordado, crochê e produção artesanal. De acordo com a coordenadora Balbina Lucas, os encontros funcionam como grupos terapêuticos que estimulam o processo criativo e o fortalecimento emocional, especialmente de mulheres. "Essas mulheres chegam lá de uma maneira... doentes mesmo, na maioria das vezes, com uma autoestima muito baixa. Então, a gente começa a trabalhar essa parte de artes, e elas vão se tornando grandes empreendedoras", destaca.

As produções artesanais são comercializadas na "Bodega das Artes", contribuindo para a autonomia financeira. Há casos de mulheres que, a partir da experiência no projeto, conseguiram estruturar seus próprios ateliês e viver do trabalho artístico. Moradora do Bom Jardim, Iara Braga conheceu o movimento em 2019 e, após participar de cursos, mudou sua trajetória profissional, passando de empreendedora de doces e pães para artesã especializada em macramê, crochê e bordado.

Iara, que hoje é dona do ateliê Flor de Girassol, enfatiza o impacto transformador: "Eu sou muito feliz e realizada por tudo que posso usufruir do projeto, precisamos de mais locais como a Casa Ame. O espaço e a referência de que arte é cultura modificam vidas, resgatam autoestima e promovem qualidade de vida, além de unificar arte e terapia". Sua história ilustra como a cultura, aliada a políticas públicas e iniciativas comunitárias, pode gerar desenvolvimento pessoal e coletivo, fortalecendo o protagonismo popular em regiões historicamente negligenciadas.