Carnaval 2026: Rio exalta Lula enquanto bloco em BH reza por anistia a Bolsonaro
Carnaval vira palco político: Lula no Rio, oração por Bolsonaro em BH

Carnaval 2026 se transforma em termômetro da polarização política brasileira

O Carnaval deste ano mais uma vez demonstrou como a maior festa popular do Brasil também serve como palco para manifestações políticas de diferentes matizes. Enquanto no Rio de Janeiro a escola de samba Acadêmicos de Niterói prestava homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Belo Horizonte, um grupo de foliões conservadores se reunia para cantar marchinhas e fazer orações pedindo liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Bloco da Anistia: mistura de festa, política e liturgia

Batizado de Bloco da Anistia, o encontro ocorreu na região central da capital mineira e reuniu algumas centenas de apoiadores bolsonaristas. A proposta do bloco ia além da simples defesa do ex-mandatário: os participantes também pediam perdão judicial para os condenados pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, episódio que marcou a invasão das sedes dos três poderes em Brasília.

O repertório do bloco apresentava uma curiosa mistura entre elementos carnavalescos e manifestações políticas. O hino nacional era cantado em ritmo de marchinha, palavras de ordem contra o Supremo Tribunal Federal ecoavam entre os foliões, e momentos de oração coletiva intercalavam-se com a festa, criando um contraste entre a alegria tradicional do Carnaval e uma liturgia política inusitada.

Provocações diretas e financiamento popular

Críticas diretas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, apareceram de forma criativa nas fantasias e adereços dos participantes. Um dos organizadores subiu no trio elétrico usando uma máscara que reproduzia o rosto do magistrado, enquanto sua camiseta estampava a frase "eu sou a lei" — uma provocação que arrancou aplausos entusiasmados do grupo reunido.

O evento foi financiado principalmente através da venda de abadás, que custavam pouco menos de cinquenta reais cada. Essa estratégia permitiu que os organizadores custeassem a estrutura necessária para o bloco, demonstrando como iniciativas políticas podem se sustentar através do apoio direto de seus simpatizantes.

Ocupação do espaço cultural como estratégia política

Os responsáveis pelo Bloco da Anistia afirmam que a iniciativa busca ocupar um espaço cultural que, na visão deles, seria dominado por pautas progressistas durante o Carnaval. A presença de um bloco conservador funcionaria assim como um contraponto simbólico dentro da festa popular, demonstrando que diferentes visões de país podem encontrar expressão nos espaços culturais tradicionais.

A mobilização partiu de militantes ligados à direita em Minas Gerais, que já planejam repetir a experiência em outras cidades brasileiras. Este episódio ilustra como o Carnaval continua sendo um palco onde diferentes projetos políticos tentam ganhar visibilidade e apoio — seja através dos sambas grandiosos das escolas do Rio de Janeiro ou das marchinhas de protesto em blocos de rua.

Polarização que transcende os desfiles

O Carnaval 2026 evidenciou de forma cristalina a profunda polarização política que marca o Brasil contemporâneo. Enquanto Lula é transformado em enredo de escola de samba no Rio de Janeiro, seus opositores criam espaços alternativos em outras capitais para defender Bolsonaro e suas bandeiras políticas.

Esta dualidade mostra como a festa popular se consolida cada vez mais como um termômetro político, refletindo não apenas as preferências estéticas dos brasileiros, mas também suas convicções ideológicas e visões sobre o futuro do país. O Carnaval, tradicionalmente visto como espaço de descontração e alegria, revela-se também como arena de disputas simbólicas que traduzem os conflitos da sociedade brasileira.