Carnaval de Rua do Rio: Uma Jornada Histórica pela Maior Folia do Mundo
O carnaval de rua do Rio de Janeiro transcende marcos oficiais de nascimento, existindo há séculos como uma manifestação cultural profundamente enraizada. A festa extrapola datas precisas, sendo uma construção gradual de diferentes grupos sociais ao longo do tempo. A partir deste sábado, a cidade entra oficialmente no clima de folia, com a Riotur estimando cerca de 7 milhões de pessoas nas ruas durante o Carnaval de 2026.
Origens Difusas e a Mistura Cultural
Não há uma data exata que marque o nascimento do carnaval de rua carioca. Registros históricos apontam para a festa ainda no período do Império, mas sua origem é difusa, moldada aos poucos por diversas camadas da sociedade. Segundo o crítico cultural e professor da PUC-Rio Miguel Jost, o Carnaval que se formou no Centro da cidade e em regiões como Estácio, Gamboa e Saúde nasceu da fusão de culturas trazidas por migrantes, especialmente do Nordeste, no fim do século XIX e início do século XX.
"Muitos dos primeiros ranchos eram formados por baianos, sergipanos, pernambucanos, alagoanos, que disputavam espaço para ver quem tinha o melhor estandarte, o melhor porta-bandeira e mestre-sala", explica Jost. O pesquisador Nei Lopes cita o romance Memórias de um Sargento de Milícias, publicado em 1854 por Manuel Antônio de Almeida, como um dos primeiros registros literários de uma festa popular no Rio com personagens vestidos de forma semelhante às futuras baianas das escolas de samba.
Nem Sempre Foi Samba: Os Ritmos Pioneiros
Embora hoje seja impossível imaginar o Carnaval sem samba, este gênero musical chegou depois da popularização da festa. No início do século XX, o Carnaval carioca era embalado por uma rica mistura de ritmos brasileiros e estrangeiros. Grupos como o Caxangá, que reunia nomes como Pixinguinha, Donga e João Pernambuco entre 1917 e 1918, se inspiravam em toadas sertanejas.
Em 1916, por exemplo, a música mais cantada no Carnaval do Rio não foi um samba, mas um one step de origem jamaicana que acabou se transformando em marcha carnavalesca. Essa diversidade musical inicial mostra como a festa foi se adaptando e incorporando influências ao longo das décadas.
Carnavais que Entraram para a História
Alguns anos ficaram marcados de forma especial na memória coletiva da cidade:
- 1919: o fim da epidemia da gripe espanhola levou mais de 400 mil pessoas às ruas. O Cordão da Bola Preta, fundado em 1918, já era um dos destaques.
- 1936: o filme Alô, Alô Carnaval levou para as telas e para as ruas a magia da festa, com estrelas como Carmen Miranda.
- 1946: o chamado "Carnaval da Vitória" celebrou o fim da Segunda Guerra Mundial, simbolizando alegria e renovação.
Blocos Icônicos e Seus Legados
O Cordão da Bola Preta segue como o bloco mais antigo do Rio, mantendo tradições centenárias. Outros que se destacam pela história são os tradicionais como o Bafo da Onça e o Cacique de Ramos. Fundado há 65 anos, o Cacique de Ramos é mais do que um simples bloco: é um dos maiores celeiros da música popular brasileira.
Dali surgiram o grupo Fundo de Quintal e artistas consagrados como Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Sombrinha. "O Cacique recebeu toda essa energia da região e construiu um legado imenso. São histórias, músicas e ídolos que nasceram aqui", afirma o carnavalesco André Cezari.
Em 2026, o bloco desfila na Avenida Chile no domingo, na segunda e na terça-feira de Carnaval, em um circuito que homenageia seu fundador, Bira Presidente, falecido no ano passado. "A gente desfila com o coração apertado, mas com muita garra, fazendo tudo para que ele ficasse feliz", declara Karla Marcely, presidente do Cacique. "É um desfile totalmente dedicado a ele", complementa a diretora Christian Kelly.
Carnaval e Política: Das Diretas Já aos Blocos da Zona Sul
O Carnaval de rua da Zona Sul renasceu nos anos 1980, especialmente durante o movimento das Diretas Já, em 1985, quando manifestações políticas ocuparam as ruas. Dessa época nasceram blocos que seguem arrastando multidões, como o Simpatia É Quase Amor, em Ipanema, e o Barbas, em Botafogo.
Segundo Rita Fernandes, pesquisadora e presidente da associação Sebastiana, o Carnaval de rua ressurgiu como movimento cultural a partir das mobilizações políticas do fim da ditadura. "Ele começa a engrenar nos anos 80, se consolida em 1985 e explode nos anos 2000. Hoje são mais de 800 blocos conhecidos, além dos não oficiais, ocupando a cidade inteira".
Samba como Crônica da Cidade
Os sambas dos blocos também funcionam como narrativas da história do Rio. Letras abordam crises econômicas, problemas políticos e o cotidiano carioca com humor e ironia característicos. "Tem samba que brinca com a falência da prefeitura, por exemplo", lembra o compositor Tomaz Miranda.
Um exemplo clássico ironizava a crise fiscal dos anos 1990: 'Bloquearam nossa conta e o Rio faliu...'. Para Miguel Jost, o Carnaval de rua representa uma das maiores manifestações artísticas do planeta. "É uma obra de arte total. Elementos sonoros, visuais, dança, política, afeto. Uma força estética, cultural e social que não encontra paralelo em nenhum outro lugar".
Essa combinação única de história, música e expressão popular continua a definir o carnaval carioca como um fenômeno incomparável, que evolui constantemente enquanto preserva suas raízes mais autênticas.