Carnaval de Batatais: a trajetória das escolas de samba e sua importância social
Carnaval de Batatais: história das escolas de samba

Carnaval de Batatais: a trajetória das escolas de samba e sua importância social

Quando o primeiro surdo ressoa nas ruas, Batatais, no interior de São Paulo, revive um passado rico em tradição e resistência. O Carnaval da cidade, hoje um evento organizado e vibrante, teve origens modestas na década de 1920, com blocos carnavalescos, marchinhas e fantasias improvisadas ocupando ruas, praças e clubes. Foi apenas em 1955 que surgiu a Princesa Isabel, considerada a primeira escola de samba de Batatais, fundada em um contexto de exclusão social.

Origens e consolidação das agremiações

Segundo Gabriel Oliveira, vice-presidente do Núcleo de Aprendizagem Princesa Isabel (Nuapi), a escola nasceu em um clube criado por pessoas negras, em uma época em que elas não eram bem-vindas em outros espaços. "Essa escola nasceu de dentro de um clube criado por pessoas negras, para pessoas negras, em uma época que os negros não eram bem-vindos em outros clubes", explica Oliveira. Após esse primeiro desfile, outras escolas surgiram, como Stella, Riachuelo, UE4, a escola da Jumil e, na década de 1970, a Castelo, que se tornaria a maior campeã da história do Carnaval batataense.

Com a criação das primeiras agremiações, o Carnaval de Batatais assumiu um formato competitivo. Na década de 1980, o crescimento do evento trouxe maior visibilidade regional, beneficiando comércio, rede hoteleira e serviços locais. Escolas como a Acadêmicos do Samba, fundada em 1979 e tricampeã naquela década, consolidaram-se. Osvaldo Batista, conhecido como Compadre Batista, relembra o período campeão: "Em 1989, eu tinha 1.150 pessoas na escola, o enredo foi 'Clara Nunes' e conseguimos colocar a terceira estrela no pavilhão".

Momentos marcantes e transformações

Um dos momentos históricos ocorreu em 1996, quando a Acadêmicos do Samba trouxe o Boi Garantido, marca do Festival de Parintins, para desfilar em Batatais. Oliveira conta que, apesar da concorrência, o boi chegou direto de uma apresentação em Paris. "Eles desfilaram em Batatais e não desfilaram em São Paulo, pois já tinham combinado conosco antes", destaca.

Com o crescimento, o Carnaval mudou de endereço ao longo dos anos, passando por pontos como a Praça da Matriz e avenidas centrais. Após Batatais conquistar o título de Estância Turística em 1994, foi idealizado o sambódromo, que passou a concentrar os desfiles a partir de 2001. Batista, que era secretário de Turismo na época, viu a necessidade de estruturação: "Eu entendi que, com esse movimento carnavalesco, nós não tínhamos suporte. Então, comecei o processo da instalação da Estância Turística".

Desafios e resiliência

A história do Carnaval de Batatais não foi apenas de crescimento. Durante a construção do sambódromo, entre 1999 e 2001, os recursos foram direcionados à obra, interrompendo temporariamente os desfiles. Mais recentemente, o evento deixou de acontecer em 2015, retornou em 2018 e foi novamente interrompido até a retomada em 2024, devido à falta de investimentos e à pandemia de Covid-19.

Nos últimos anos, o Carnaval incorporou novas formas de celebração, como blocos de rua, shows musicais e a eleição da corte carnavalesca, sob o nome de Batatais Folia. Essa modernização ampliou a programação, fortalecendo o turismo e a economia local, consolidando o evento como um dos principais do calendário cultural municipal.

Papel social e legado cultural

Mais do que um espetáculo, o Carnaval de Batatais mantém um papel social ativo durante todo o ano. As escolas de samba realizam atividades como escolinhas de bateria para crianças, promovendo formação e pertencimento. Oliveira ressalta: "As escolas têm esse papel social mais forte, tirando a criança da rua e preparando o futuro do Carnaval da cidade".

Para Compadre Batista, o Carnaval é parte inseparável de sua vida. Ele é idealizador do projeto Casa do Samba, que cobre o evento anualmente e organiza festas nas quadras das escolas. "Eu não vivo sem Carnaval. Quando vejo um desfile com aquela multidão, todos cantando os sambas-enredo, fico muito feliz. Estamos no caminho certo", afirma Batista, destacando a paz e a cultura que a festa proporciona à comunidade.

Assim, o Carnaval de Batatais resiste como uma tradição que une passado e presente, celebrando não apenas a alegria, mas também a identidade e a coesão social da cidade.