Tradição carnavalesca: blocos históricos do Brasil resistem por mais de um século
O Brasil ainda era um império quando o bloco Zé Pereira dos Lacaios foi fundado em 1867 na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Considerado o mais antigo em atividade no país, este grupo carnavalesco testemunhou transformações profundas na sociedade brasileira. No Rio de Janeiro, o Cordão da Bola Preta presenciou o fim da Primeira Guerra Mundial e o início da gripe espanhola em 1918, consolidando-se como o bloco mais antigo da capital fluminense. Já no agreste pernambucano, o Carnaval do Papangu, em Bezerros, reinventou a brincadeira com máscaras ao longo de 140 anos, destacando-se como a maior festa do interior do estado.
Sobrevivência histórica e cultural
As três manifestações culturais e carnavalescas sobreviveram aos períodos mais marcantes da história do Brasil nos últimos séculos. Desde o fim da escravidão, passando pelas ditaduras da Era Vargas e Militar, até a recente pandemia de Covid-19, esses blocos mantiveram suas tradições vivas. Neste ano, continuam desfilando alegria e resistência cultural pelas ruas onde passam, demonstrando uma capacidade notável de adaptação e perseverança.
O Zé Pereira dos Lacaios mantém seu cortejo aos sábados pelas ladeiras históricas de Ouro Preto, apresentando bonecos gigantes, fraques, cartolas, lanternas coloridas e o som marcante dos clarins e bumbos. No centro do Rio de Janeiro, o Cordão da Bola Preta preserva a tradição de abrir o sábado de carnaval pela manhã, atraindo milhares de foliões às ruas e emocionando até mesmo personalidades como a rainha do bloco, Paolla Oliveira. Em Bezerros, os papangus mascarados ocupam o centro da cidade no domingo e na segunda-feira de carnaval, criando um espetáculo único de cores e anonimato.
Anonimato e fantasia no agreste pernambucano
Os papangus de Bezerros são reconhecidos como patrimônio cultural imaterial de Pernambuco, com uma tradição que se baseia no anonimato, no improviso e na fantasia. O elemento principal são as máscaras coloridas, que cumprem um papel estético e simbólico profundo: ao esconder o rosto, o folião suspende temporariamente sua identidade social, permitindo brincar livremente sem distinção de classe, profissão ou idade.
Os mascarados, vestidos com roupas largas e extravagantes, circulam pelas ruas interagindo com moradores e turistas de maneira desinibida. A origem mais difundida do grupo remonta ao início do século XX, quando amigos saíam às ruas para brincar o carnaval sem serem reconhecidos. O nome "papangu" estaria associado ao costume antigo de pedir angu para comer nas casas onde passavam durante as festividades.
Inicialmente, os foliões confeccionavam as máscaras com coité, um fruto que, depois de seco e tratado, servia como molde para os rostos fantasiados. Com o tempo, as máscaras evoluíram para papelão e papel machê, até ganharem técnicas mais sofisticadas e acabamentos vibrantes. Embora o carnaval de Bezerros tenha adquirido maior visibilidade turística, estrutura de palco e programação oficial, o núcleo simbólico da festa permanece na figura do mascarado anônimo que ocupa o espaço público durante os dias de folia.
Resistência e identidade coletiva
O Cordão da Bola Preta surgiu na região central do Rio de Janeiro como uma dissidência de outros grupos carnavalescos, adotando desde cedo um modelo aberto e popular com repertório de marchinhas tradicionais. O figurino padronizado - traje branco com bolas pretas - funciona como elemento de identidade coletiva, ajudando a minimizar diferenças individuais entre os participantes.
Ao longo do século XX, o bloco enfrentou períodos de repressão e controle das manifestações populares, especialmente durante o Estado Novo e a ditadura militar. Apesar das adversidades, manteve seus desfiles anuais, consolidando-se como símbolo do carnaval tradicional de rua. O reconhecimento como patrimônio estadual reforça essa trajetória de resistência cultural que atravessa gerações.
Satirizando a elite mineira
O Zé Pereira dos Lacaios oferece uma experiência única aos foliões, combinando fraques, cartolas, bonecos gigantes, lanternas coloridas e o som marcial dos clarins. Segundo documentação histórica, o grupo surgiu como uma resposta satírica a outro grupo carnavalesco que existia em Ouro Preto na época, chamado "Machadinhos", composto pela elite da cidade.
Os membros dos Machadinhos chamavam os funcionários do Palácio dos Governadores de "lacaios", termo associado à submissão e servidão. Os servidores, então, assumiram o nome para si com orgulho e fundaram o Club dos Lacaios. Personagens como o Catitão, a Baiana e o Benedito representam figuras que atravessaram gerações, enquanto as lanternas, originalmente usadas para iluminar o cortejo em tempos sem luz elétrica, tornaram-se símbolo permanente do bloco.
Dessa forma, o grupo se mantém ativo por quase 160 anos, preservando tradições ancestrais enquanto se adapta a diferentes momentos históricos marcados por crises econômicas, guerras mundiais e transformações políticas. Esses três blocos históricos não apenas sobrevivem, mas prosperam, demonstrando a vitalidade da cultura popular brasileira e sua capacidade de resistir ao tempo com alegria, criatividade e determinação.
