Blocos tradicionais de SP garantem desfiles após patrocínio da Amstel
Blocos de SP garantem carnaval após patrocínio da Amstel

Blocos históricos de São Paulo salvam carnaval com patrocínio de última hora

A apenas três dias do início das festividades, blocos tradicionais de São Paulo que enfrentavam o risco de cancelamento conseguiram garantir sua presença nas ruas após fechar um crucial acordo de patrocínio. A cervejaria Amstel, do Grupo Heineken, anunciou nesta quarta-feira (11) o apoio financeiro a quatro agremiações históricas: Tarado Ni Você, Pagu, Agora Vai e Espetacular Charanga do França.

Crise orçamentária e redução de investimentos públicos

A confirmação dos desfiles ocorre após semanas de incerteza, com organizadores alertando sobre a possibilidade de cancelamentos mesmo com o carnaval paulistano movimentando bilhões de reais na economia local. A situação crítica tem origem na redução orçamentária implementada pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que cortou R$ 12 milhões do orçamento destinado à estrutura do carnaval de rua em 2026.

O valor total disponibilizado ficou em R$ 30,2 milhões, representando uma queda de 29% em comparação com 2025, quando a prefeitura investiu R$ 42,5 milhões na infraestrutura carnavalesca, com patrocínio adicional de R$ 27,8 milhões da Ambev. Além disso, apenas 100 blocos foram contemplados pelo edital municipal de fomento deste ano, com repasses limitados a R$ 25 mil cada – quantia considerada insuficiente pelos organizadores.

Desigualdade no financiamento e modelos ultrapassados

Mariana Bastos, fundadora do Bloco Pagu – que completa dez anos em 2026 –, destacou as falhas no sistema de financiamento: "O carnaval cresce, mas cresce de forma cara. Os blocos são muito diferentes entre si, e os modelos precisam ser repensados para garantir a viabilidade da festa". Segundo ela, o edital municipal não diferencia blocos pequenos, médios e grandes, nem considera a estrutura necessária para cada desfile.

O problema é especialmente grave para iniciativas culturais locais: "Os megablocos acabam atraindo a maior parte das marcas, enquanto iniciativas ligadas à cultura local ficam à margem", afirmou Bastos. No caso específico do Pagu, o custo total para realizar o desfile chega a aproximadamente R$ 250 mil, dez vezes o valor máximo oferecido pelo edital municipal.

Desfiles confirmados e celebrações garantidas

Com o patrocínio assegurado, o Bloco Pagu confirmou seu desfile comemorativo de dez anos para terça-feira (17), no Centro de São Paulo, no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João. Marina, integrante da organização, relatou o drama vivido: "A gente ficou no limite para conseguir produzir, preparadas para caso conseguíssemos viabilizar o desfile, mas também para desmontar todo o esquema se não acontecesse".

Já o Tarado Ni Você, que homenageia Caetano Veloso com o tema "Cinema transcendental", desfila neste sábado (14) a partir das 14h, também no tradicional trajeto da Avenida Ipiranga com São João. Antes do anúncio do patrocínio, Guima, um dos fundadores, havia declarado que o bloco manteria o desfile mesmo sem apoio, recorrendo a recursos próprios e empréstimos bancários – alternativas que classificou como "extremas" e sintomáticas do atual modelo de financiamento.

Contraste com cancelamentos e diversidade de custos

O anúncio positivo contrasta com o cancelamento de outros blocos tradicionais, como o Bloco do Sargento Pimenta, que não conseguirá desfilar este ano por falta de patrocínio suficiente. A realidade financeira dos blocos em São Paulo é marcada por uma enorme diversidade: os custos podem variar de R$ 5 mil a mais de R$ 700 mil, dependendo do porte e da estrutura necessária.

Zé Cury, coordenador do Fórum de Blocos do Carnaval de Rua, explica essa complexidade: "São Paulo não tem um carnaval só. São vários carnavais acontecendo ao mesmo tempo". Segundo ele, é justamente essa diversidade que torna impossível estabelecer um preço padrão para os desfiles. Um bloco pequeno e comunitário pode custar pouco, enquanto agremiações maiores exigem investimentos significativos em segurança, som e infraestrutura.

Tipologia dos blocos e suas realidades financeiras

  1. Blocos na quebrada: Custo médio de R$ 5 mil a R$ 25 mil, com forte vínculo territorial e estrutura simples, muitas vezes utilizando veículos adaptados como caminhonetes com equipamento na caçamba.
  2. Blocos da classe média: Custo entre R$ 15 mil e R$ 40 mil, criados nos últimos 10-12 anos por moradores que ocupam as ruas de seus bairros, com públicos de 3.000 a 10 mil pessoas.
  3. Blocos urbanos e empreendedores: Custo de R$ 25 mil a R$ 70 mil, frequentemente criados por jovens que aprenderam a batucar e decidiram criar seus próprios desfiles, muitas vezes homenageando artistas ou estilos musicais específicos.
  4. Blocos ritualísticos: Custo variável, com foco em qualidade e continuidade, ligados a tradições culturais, religiosas ou projetos sociais permanentes que mantêm atividades ao longo de todo o ano.
  5. Blocos de grande porte: Custo médio de R$ 250 mil a R$ 700 mil (ou mais), com dezenas ou centenas de milhares de foliões, presença de artistas conhecidos e estrutura comparável à de grandes eventos, incluindo múltiplos trios elétricos e equipes de produção que podem chegar a 70 pessoas.

Exigências de segurança e a lógica dos custos

Independentemente do tipo de bloco, as exigências de segurança aumentaram significativamente nos últimos anos. Planos detalhados, brigada de incêndio, isolamento adequado, ambulância e documentação técnica do caminhão tornaram-se obrigatórios para todos os desfiles. Zé Cury resume a situação: "Quanto mais serviço você entrega, mais custa. Esta é a lógica".

Para o bloco Tarado Ni Você, que reúne mais de 100 mil pessoas no carnaval paulistano, o custo para colocar o desfile na rua é de aproximadamente R$ 400 mil. Rodrigo Guima detalha: "Nossa planilha é de R$ 400 mil, com cachês de fornecedores negociados a menos, sem que os fundadores ganhem um real pelos seis meses dedicados de trabalho". Se fossem contabilizados cachês melhores e um fundo de caixa para o bloco, o valor seria consideravelmente maior.

A Prefeitura de São Paulo, em nota anterior divulgada quando os blocos avaliavam suspender os cortejos, afirmou que oferece "toda a infraestrutura para a realização do Carnaval de Rua da cidade, além de apoio financeiro", mas ressaltou que "é de responsabilidade dos organizadores de blocos se viabilizarem economicamente para a festa por meio de patrocínio".