Bloco histórico de Sorocaba abre Carnaval com foco na segurança feminina
O carnaval de Sorocaba, no interior de São Paulo, tem sua abertura oficial marcada para esta sexta-feira (13) com o tradicional bloco Depois a Gente Se Vira. Mantendo uma trajetória de quase quarenta anos que alia folia e crítica social, o grupo escolheu para esta edição um tema de extrema relevância: a luta pelo direito e segurança das mulheres, sob o lema "Um Carnaval por um Mundo Seguro para as Mulheres".
Origens ligadas à redemocratização do Brasil
Para compreender a essência deste bloco que se tornou instituição cultural na região, é fundamental retornar às suas raízes. José Orivaldo Simonetti, um dos fundadores, revela que a origem do grupo está intimamente conectada ao fim da ditadura militar brasileira.
"Em 1986, logo após o fim da ditadura, eu e o professor Nilo Antônio Carlos Seifert assistimos a um filme que nos animou a abrir um bar. Assim nasceu o Depois, na Eugênio Salerno. A ideia inicial era Depois das 17h, mas ficou só Depois. O bar acabou virando ponto de encontro cultural e ali surgiu a vontade de criar um bloco. Como já era o fim de ano, deixamos para 1987", conta Simonetti em entrevista exclusiva.
Do bar às ruas: o nascimento de uma tradição
O ambiente boêmio do estabelecimento rapidamente se transformou em um espaço onde cultura e política caminhavam lado a lado. O próximo passo natural foi levar essa energia para as ruas da cidade.
"Assim, nós reunimos cerca de seis ou sete amigos, os 'generais da banda', e começamos a pensar em cores, porta-bandeira e tudo mais. Com muito amadorismo, mas muita vontade, fomos às ruas na sexta-feira que antecede o carnaval. Foi assim que o bloco Depois da Gente Se Vira nasceu: do encontro de outros amigos dentro do bar", recorda emocionado o fundador.
Simonetti enfatiza que uma característica fundamental do movimento sempre foi a liberdade, em um Brasil que caminhava rumo à redemocratização. Por essa razão, a decisão de não utilizar cordas de isolamento durante os desfiles se tornou um símbolo poderoso para aqueles jovens idealistas.
Identidade visual nascida em mesa de bar
O nome e o logotipo icônicos do bloco também surgiram de maneira espontânea, em uma das mesas do próprio bar. O criador foi o publicitário Manuel Mota, conhecido como Mané Mota.
"Ele fez um desenho e criou o nome e o logotipo, e assim o nome Depois a Gente se Vira foi adotado, e hoje estão nas camisetas, porta-bandeiras. Tudo nasceu desse pequeno esboço do Mané Mota, o bar foi só o embrião do nosso bloco", explica Simonetti com orgulho.
Quatro décadas de resistência e celebração
Com impressionantes 39 anos de existência e 37 desfiles realizados nas ruas de Sorocaba, o bloco já abordou inúmeros temas sociais e prestou diversas homenagens ao longo de sua trajetória. A emoção é evidente na voz de Simonetti ao falar sobre a longevidade do grupo.
"Só paramos por dois anos durante a pandemia. Durar tanto tempo assim é algo raro, que só acontece em lugares como Recife e Rio de Janeiro", finaliza o fundador, destacando a singularidade desta tradição no interior paulista.
Informações sobre o desfile de 2025
Para quem deseja participar desta celebração histórica:
- Quando: sexta-feira (13 de fevereiro)
- Concentração: às 19 horas
- Local de início: Avenida Doutor Eugênio Salerno
- Trajeto: o bloco seguirá pela Praça Nove de Julho, ruas Moreira César e Cesário Mota, com encerramento na Praça Frei Baraúna
O Depois a Gente Se Vira continua sendo um exemplo notável de como a cultura popular pode ser veículo para reflexão social, mantendo viva uma tradição que nasceu nos últimos anos da ditadura e se fortalece a cada carnaval com temas urgentes da contemporaneidade.
