Alma das escolas de samba, as baterias não embalam apenas o desfile: elas carregam identidade, história e até nomes próprios que se tornam marcas registradas no universo do Carnaval. Conhecidos no mundo do samba como verdadeiras assinaturas sonoras, os apelidos ajudam a diferenciar estilos, levadas e concepções musicais de cada agremiação, atravessando gerações e identificando comunidades inteiras no Sambódromo.
O coração pulsante do samba
"O batuque da comunidade atrai. Tudo começa no batuque", resume o carnavalesco e comentarista Milton Cunha. "A bateria é o coração pulsante de uma escola de samba", afirma. Formada por no mínimo 200 ritmistas, a bateria é responsável por dar andamento rítmico ao desfile, seguindo regras rígidas previstas no regulamento.
Os instrumentos — como surdos, caixas, tamborins, chocalhos, cuícas e repiques — compõem uma orquestra de percussão pura. "Não existe instrumento de sopro na bateria, como acontece em bandas marciais ou blocos de rua", explica Milton Cunha. Desde a década de 1930 são proibidos sons semelhantes aos de sopro, com exceção dos apitos usados pelos mestres e diretores de harmonia.
Mestres: os maestros do ritmo
À frente das baterias estão os mestres, responsáveis por conduzir o ritmo como maestros de uma grande orquestra. São eles que definem os arranjos musicais, os desenhos rítmicos e as famosas paradinhas — momentos em que a bateria interrompe ou modifica o andamento para valorizar o samba-enredo.
"No recuo da bateria, o público vê um verdadeiro show, com dança e coreografia", diz Milton. O desafio, no entanto, é equilibrar inovação e precisão: qualquer erro de sincronização pode custar décimos preciosos na apuração.
As baterias do Grupo Especial 2026
Para o Carnaval 2026, reunimos as baterias na ordem oficial de desfile, com número atualizado de ritmistas e detalhes do que cada escola promete levar para a Marquês de Sapucaí.
Acadêmicos de Niterói — Cadência de Niterói
Estreante no Grupo Especial, a Acadêmicos de Niterói abre os desfiles com a bateria Cadência de Niterói, que terá mestre Branco Ribeiro pela primeira vez à frente do quesito na elite. Com 240 ritmistas, Branco explica que o trabalho começou pela base: "A gente iniciou o trabalho com um ensaio específico para as caixas, passando a identidade da bateria. Nosso diferencial está na levada das caixas e nas viradas." Rainha de bateria: Vanessa Rangeli.
Imperatriz Leopoldinense — Swing da Leopoldina
Tradicional no Grupo Especial, a Imperatriz mantém o apelido Swing da Leopoldina, que faz referência à Zona da Leopoldina e à batida cadenciada que marcou o ritmo da escola. Há 10 anos à frente dos 250 ritmistas, mestre Lolo celebra uma trajetória de sucesso — no ano passado, a bateria conquistou o Estandarte de Ouro, inédito em sua história. Rainha de bateria: Iza.
Portela — Tabajara do Samba
Mestre Vitinho é o atual comandante da Tabajara do Samba, a bateria da Portela, para o Carnaval 2026. Cria da escola e reconhecido por sua trajetória no samba, ele assumiu o comando após o desligamento de Nilo Sérgio em 2025, trazendo renovação para a agremiação. Comanda 320 ritmistas como parte da reestruturação da escola. Rainha de bateria: Bianca Monteiro.
Mangueira — Tem Que Respeitar Meu Tamborim
A Verde e Rosa entra na Avenida ao som da bateria Tem Que Respeitar Meu Tamborim, sob comando dos mestres Taranta Neto e Rodrigo Explosão. Para 2026, a Mangueira não informou o número de ritmistas. Rainha de Bateria: Evelyn Bastos.
Mocidade Independente — Não Existe Mais Quente
A bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel é composta por 270 ritmistas comandados pelo mestre Dudu — à frente da Não Existe Mais Quente desde 2013. Dudu é reconhecido por manter o legado de Mestre André, criador da famosa "paradinha" da escola. Rainha de bateria: Fabíola Andrade.
Beija-Flor de Nilópolis — Soberana
A bateria Soberana da Beija-Flor de Nilópolis vai entrar na Avenida com 250 ritmistas, sob comando de mestre Rodney. "A gente intensifica o uso da melodia do samba. O samba pede uma coisa, a bateria executa exatamente aquilo", explica. Rainha de bateria: Lorena Raíssa.
Viradouro — Furacão Vermelho e Branco
A Furacão Vermelho e Branco da Viradouro vai entrar na Avenida com 250 ritmistas e será regida por Mestre Ciça, um dos mais famosos em atividade — e enredo da agremiação em 2026. Com 55 carnavais no currículo e 36 anos ininterruptos de Sapucaí, Ciça construiu uma das trajetórias mais respeitadas do samba. Rainha de bateria: Juliana Paes.
Unidos da Tijuca — Pura Cadência
A Unidos da Tijuca entra na Marquês de Sapucaí em 2026 com 262 ritmistas e 12 diretores. O mestre de bateria da escola há mais de 17 anos é o Casagrande. Conhecida como o "reloginho" das baterias do Rio, a Pura Cadência é sinônimo de precisão técnica. "Temos 105 caixeiros. É a única bateria com esse número", destaca. Rainha de bateria: Mileide Mihaile.
Paraíso do Tuiuti — SuperSom
A bateria da Paraíso do Tuiuti, com 256 integrantes, é carinhosamente apelidada de SuperSom. O mestre Marcão é quem comanda a festa do repique e tamborim há 6 anos na escola. No carnaval do ano passado, a bateria conquistou três notas máximas e um 9.9, descartado. Rainha de bateria: Mayara Lima.
Vila Isabel — Swingueira de Noel
Referência ao compositor Noel Rosa, a Swingueira de Noel faz jus ao nome com uma batida leve, dançante e cheia de suingue, marca histórica da escola de Vila Isabel. Com 280 ritmistas, a bateria é comandada desde 2018 pelo mestre Macaco Branco. Rainha de bateria: Sabrina Sato.
Grande Rio — Invocada
A bateria da Grande Rio passou a ser conhecida como Invocada em 2010, diante da ousadia na apresentação do grupo. Tem 3 Estandartes de Ouro e dois Tamborins de Ouro. Para 2026, são 270 ritmistas no comando do mestre Fafá. Rainha de bateria: Virginia Fonseca.
Acadêmicos do Salgueiro — Furiosa
O ritmo salgueirense é ditado pela Furiosa, a bateria da escola, que tem Xangô como orixá padroeiro. A Furiosa surgiu entre as décadas de 60 e 70. Atualmente, os irmãos Guilherme e Gustavo comandam a bateria da escola. Para 2026, serão 200 ritmistas. Rainha de bateria: Viviane Araújo.
Cada uma dessas baterias representa não apenas o som que embala o desfile, mas a alma de suas comunidades, mantendo viva a tradição enquanto inova dentro dos limites do regulamento. São elas que fazem o coração do Carnaval bater mais forte a cada ano na Marquês de Sapucaí.