O Pacto da Vergonha de 1982: A Partida que Mancha a História da Copa do Mundo
Quem estaria disposto a assistir pela televisão a partida entre Argélia e Áustria, marcada para 27 de junho, um sábado, às 23h? À primeira vista, pode parecer um confronto desprezível, mas ele carrega uma história extraordinária e quase inacreditável, remontando à Copa do Mundo de 1982, na Espanha, conhecida também pela Tragédia do Sarriá. No entanto, aqui a conversa é outra, envolvendo um dos episódios mais polêmicos do futebol internacional.
O Cenário do Grupo nas Astúrias
No grupo que reunia Alemanha, Chile, Argélia e Áustria, disputado na região das Astúrias, a zebra surgiu logo na estreia. A seleção argelina, com jogadores como Madjer, Belloumi, Assad e Kourichi, venceu a poderosa equipe alemã de Rummenigge e Breitner por 2 a 1. Todas as equipes derrotaram o Chile, mas a Argélia perdeu para a Áustria, que na época contava com um elenco forte, destacado quatro anos antes na Argentina, com nomes como Krankl, Pezzey e Prohaska.
Na última rodada, após a Argélia vencer o Chile, o cenário era claro: uma vitória alemã por 1 a 0 sobre a Áustria garantiria a classificação de ambas as equipes para a próxima fase. E foi exatamente o que aconteceu, em um episódio que ficou conhecido como o "jogo da vergonha" em português, ou "Nichtangriffspakt von Gijón" em alemão, também batizado como "el pacto de la vergüenza" em espanhol.
A Farsa em Campo e a Revolta nas Arquibancadas
Com as arquibancadas do estádio El Molinón vibrando e uma maciça presença de torcedores argelinos, a Alemanha começou forte. Aos 11 minutos, um cruzamento de Littbarski alcançou Hrubesch, que marcou de cabeça. A partir daí, deu-se início a uma farsa escandalosa. Os dois times passaram a trocar passes horizontais, em uma exibição ridícula, sem nenhum toque para a frente.
A torcida percebeu imediatamente o que estava acontecendo, e o caos se instaurou. Alguns argelinos escalaram as grades na esperança de interromper a charada, enquanto o público vaiou e agitou lenços em protesto. O estádio se transformou em um barril de pólvora, com cânticos unânimes em favor da Argélia e gritos de "Fora, fora!" ecoando por toda parte.
O árbitro escocês, Bob Valentine, nada pôde fazer, pois não havia regras como no handebol ou boxe para interromper a falta de agressividade. O atacante austríaco Schachner relatou mais tarde: "Eu estava desesperado, porque não entendia nada, vendo como o nosso centroavante, Krankl, jogava como líbero, e como o alemão Briegel me dizia para não correr tanto, até que a certa altura pararam de me passar a bola." Briegel, por sua vez, confessou: "Decidimos não nos esforçarmos tanto...".
As Revelações e a Reação da FIFA
O goleiro alemão Schumacher, que também ganharia antipatia universal por sua entrada brutal no francês Patrick Battiston na semifinal de Sevilha, saiu em defesa de Briegel de maneira peculiar: "O Briegel provavelmente estava bêbado ao revelar essa história." No entanto, revendo as imagens no YouTube, tudo indica que foi o próprio Schumacher quem supostamente recebeu a tarefa de anunciar o início do "toque de recolher" em campo, colocando um boné branco após o gol de sua equipe.
Naquela mesma noite, de volta ao hotel em Gijón, Schumacher jogou água e lixo nos torcedores que se reuniram na rua em protesto. A FIFA não tomou nenhuma ação imediata, mas, em Copas seguintes, decidiu que todas as partidas da última rodada da fase de grupos seriam realizadas no mesmo dia e horário para evitar situações semelhantes.
O Legado e a Vingança 44 Anos Depois
A Alemanha chegou à final daquela Copa, sendo derrotada pela Itália de Paolo Rossi, enquanto a Áustria foi eliminada na fase seguinte. A Argélia, banida por aquele ato desprezível, nunca esqueceu o episódio. Agora, 44 anos depois, tem a chance de vingança em um confronto direto. Anote a data: 27 de junho, um sábado, às 23h00 do horário do Brasil, com a partida sendo disputada em Kansas City. Este jogo promete ser mais do que uma simples partida de futebol; é um capítulo de redenção na história do esporte.



