Moncler escolhe Brasil em vez de potências tradicionais para patrocinar nas Olimpíadas de Inverno 2026
Moncler patrocina Brasil nas Olimpíadas de Inverno 2026

Marca de luxo italiana rompe padrões ao apostar no Brasil para as Olimpíadas de Inverno de 2026

Milão, berço de grifes icônicas como Prada e Dolce & Gabbana, está acostumada a ditar as tendências nas passarelas globais. Nas próximas semanas, porém, o cenário se transformará radicalmente. A cidade italiana será o palco da edição de 2026 dos Jogos Olímpicos de Inverno, criando uma fusão inédita entre alta costura e performance atlética de elite. É nesse cruzamento entre dois universos que marcas de luxo disputam visibilidade, assinam uniformes e reforçam suas imagens ao lado das potências tradicionais do gelo. No entanto, em meio a estratégias previsíveis, uma marca decidiu fugir completamente do roteiro estabelecido.

Moncler escolhe caminho inovador com foco no Brasil e em Lucas Pinheiro Braathen

Enquanto nomes consagrados do mercado apostam em delegações já consolidadas e com histórico de medalhas, a Moncler optou por um caminho diferenciado e ousado. A grife italiana resolveu associar-se diretamente a atletas brasileiros, reposicionando simultaneamente sua identidade no competitivo universo da alta performance esportiva. O nome central dessa estratégia audaciosa é Lucas Pinheiro Braathen.

Nascido na Noruega, mas filho de mãe brasileira, Braathen foi considerado uma das maiores promessas do esqui alpino mundial até 2023. Naquele ano, ele surpreendeu o mundo esportivo ao anunciar uma aposentadoria precoce, em meio a conflitos com a federação norueguesa e restrições relacionadas a contratos de patrocínio. Após um ano inteiro afastado das competições, o atleta decidiu retornar ao circuito internacional – mas desta vez representando oficialmente o Brasil.

Braathen passou parte significativa de sua infância no território brasileiro, domina fluentemente o português, mantém familiares no país e costuma citar a cultura brasileira como componente essencial de sua identidade pessoal e profissional. Agora, ele carrega consigo a possibilidade concreta de conquistar a primeira medalha olímpica de inverno da história do Brasil.

Performance competitiva e estratégia de marca se entrelaçam

Atualmente, Lucas Braathen ocupa a vice-liderança do ranking da Copa do Mundo nas modalidades de slalom e slalom gigante – exatamente as duas provas que disputará nos Jogos de Milão-Cortina, programadas para os dias 14 a 16 de fevereiro. Essa narrativa fascinante, que atravessa continentes e rompe padrões tradicionais do esporte de inverno, foi um dos elementos cruciais que aproximou o atleta da Moncler.

Porém, a escolha estratégica da marca italiana não se explica apenas pelo talento individual do esquiador. Ela está diretamente vinculada a um reposicionamento mais amplo da Moncler no mercado. Braathen é patrocinado especificamente pela Moncler Grenoble, linha de alta performance da grife, voltada integralmente ao universo do esporte e da montanha. Mais do que uma simples coleção, a Grenoble representa a tentativa ambiciosa da Moncler de reafirmar sua identidade em um segmento dominado por marcas especializadas em performance técnica.

O nome Grenoble não é casual. Refere-se à cidade francesa que sediou os Jogos Olímpicos de Inverno de 1968 – a última edição em que a Moncler esteve associada de forma direta ao evento olímpico. Ao resgatar deliberadamente essa herança histórica, a marca busca reconectar de maneira inteligente seu passado glorioso com um futuro inovador.

Especialistas analisam os movimentos de branding por trás da decisão

Para Victor Dellorto, especialista em marketing e CEO da Deskfy, o desempenho consistente de Braathen reforça poderosamente o valor simbólico da escolha da Moncler. "A história de Lucas é, por si só, um ativo estratégico de alto valor. Ele combina performance real e mensurável com uma narrativa cultural extremamente potente, algo que as marcas de luxo contemporâneas buscam cada vez mais", afirma o executivo.

Nesse contexto multifacetado, a trajetória de Braathen transforma-se em um ativo simbólico de grande relevância. Não se trata apenas de apoiar financeiramente um atleta, mas de associar estrategicamente a linha Grenoble a uma jornada que combina reinvenção pessoal e afirmação identitária – valores que dialogam profundamente com o posicionamento desejado pela marca. "Hoje, as marcas não disputam apenas medalhas ou pódios, mas significado autêntico", complementa Dellorto. "Narrativas genuínas e bem construídas geram vínculo emocional, diferenciação clara no mercado e memória de marca duradoura."

Além do patrocínio individual ao esquiador, a Moncler também assina os uniformes oficiais de toda a equipe brasileira. Os trajes incluem referências sutis, porém significativas, à identidade nacional, como estrelas inspiradas na bandeira brasileira, incorporadas de maneira harmoniosa ao design técnico e funcional dos macacões utilizados nas provas de alta competição.

Análise de riscos e oportunidades no patrocínio atípico

Para Marcos Henrique Bedendo, especialista em branding com vasta experiência, a escolha da Moncler pode ter sido menos ideológica e mais pragmática do que aparenta. "Talvez não exista um aceno puramente emocional ao Brasil. A Moncler pode ter identificado uma oportunidade rara e única: um atleta altamente competitivo, com potencial real de medalha, disponível em uma delegação menos disputada por grandes patrocinadores", analisa o especialista.

A decisão de apostar em um atleta brasileiro, contudo, não é isenta de riscos consideráveis. O Brasil não possui tradição consolidada em esportes de inverno, e o desempenho competitivo pode não render tanta exposição midiática quanto apoiar atletas de países que tradicionalmente lideram os quadros de medalhas. A visibilidade garantida por pódios e transmissões televisivas tende a ser mais limitada nesse cenário, pontua Bedendo com precisão.

Ainda assim, o risco envolvido pode ser menor do que parece à primeira vista. Segundo Dellorto, a aposta da Moncler transcende o mero resultado esportivo. "Mesmo que o resultado olímpico imediato não venha, a Moncler já ganha significativamente por demonstrar sensibilidade cultural aguçada e proximidade genuína com o público brasileiro", afirma o especialista em marketing.

Diferenciação estratégica e benefícios de longo prazo

Ao vincular sua imagem global a uma trajetória improvável, multicultural e fora do eixo tradicional do esporte de inverno, a Moncler consegue se diferenciar de maneira marcante em um cenário onde muitas marcas disputam os mesmos territórios narrativos. Bedendo acrescenta outra camada crucial à análise: a questão do custo-benefício. "Patrocinar seleções tradicionais e consagradas é extremamente caro e intensamente disputado. Ao apostar estrategicamente no Brasil, a marca pode ter conquistado exposição global relevante e o direito valioso de assinar um uniforme olímpico com investimento financeiro consideravelmente menor", destaca.

E, em um mercado onde a diferenciação pesa tanto quanto a performance pura, essa estratégia pode render frutos substanciais de longo prazo. O Brasil, além de tudo, constitui um mercado estratégico por excelência: grande em dimensão, em franca expansão econômica e com crescente apetite pelo consumo premium e de luxo. Associar-se a um atleta brasileiro em um evento global de magnitude olímpica reforça diretamente a presença da marca na região e cria pontes sólidas com públicos ainda pouco explorados.

Mudança de paradigma no branding esportivo contemporâneo

Portanto, o caso da Moncler evidencia claramente uma mudança profunda no branding esportivo atual. Cada vez mais, marcas de diversos segmentos buscam histórias autênticas capazes de gerar identificação emocional e conversa espontânea, não apenas troféus e medalhas. No caso específico de Braathen, há uma identidade dupla fascinante, um processo de reinvenção pessoal e uma trajetória que desafia padrões estabelecidos – elementos extremamente atraentes para uma marca posicionada estrategicamente entre a moda de luxo e a alta performance técnica.

Se Lucas Braathen conquistar uma medalha nos Jogos de 2026, o feito será histórico para o Brasil e ampliará exponencialmente o impacto da estratégia ousada da Moncler, completa Bedendo em sua análise. Mas, mesmo sem a garantia de um pódio imediato, a marca italiana já ocupa um espaço singular e diferenciado: o de quem escolheu conscientemente contar uma história diferente. Ou, como sugerem os especialistas consultados, o de quem soube explorar com maestria uma oportunidade rara na interseção entre narrativa cultural, performance atlética e dinâmica de mercado.

E, em um cenário competitivo como o dos Jogos Olímpicos de Inverno, onde tantas marcas apostam repetidamente nas mesmas potências tradicionais, às vezes a narrativa mais forte e memorável nasce justamente da escolha menos óbvia e mais corajosa.