Lucas Braathen: a jornada de identidade do esquiador brasileiro-norueguês nos Jogos Olímpicos de Inverno
Lucas Braathen: identidade e esqui nos Jogos Olímpicos de Inverno

Lucas Braathen: a complexa jornada de identidade do esquiador brasileiro-norueguês nos Jogos Olímpicos de Inverno

Norueguês e brasileiro, residente na Áustria, com família em São Paulo, namorada no Rio de Janeiro e mãe na Nova Zelândia. Desde a infância, o esquiador Lucas Pinheiro Braathen, de 25 anos, convive com a questão da identidade para quem vive entre dois ou mais países, um tema que ele descreve como emocionalmente confuso. Como atleta, ele afirma hoje extrair vantagens dessa multiplicidade cultural.

Entre culturas: a busca por um lar

"Na Noruega, eu sempre fui diferente. Era uma criança brasileira, sotaque diferente, com os lábios maiores do que todo mundo. No Brasil, eu sou gringo. O que entendi muito rápido é que você não está em casa em nenhum lugar", revelou Lucas em entrevista à reportagem na manhã deste sábado (7), em Milão. Horas antes, ele havia sido o protagonista, vestindo as cores da bandeira brasileira, no desfile de atletas do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno.

O atleta destacou que essa experiência foi particularmente difícil durante sua infância, exigindo anos de vivência para compreender que as diferenças culturais trouxeram crescimento significativo. "Achei isso muito difícil na minha infância e precisei viver muitos anos até entender que essa diferença entre culturas me trouxe muito crescimento. Hoje eu sinto gratidão, porque eu nunca iria ser o atleta que sou se não fosse por essa história meio complicada", afirmou, em português com leve sotaque e pequenos erros, contrastando com seu inglês impecável.

Adaptação como diferencial no esporte

Lucas explicou que encontrou seu lugar ao passar a viajar mais intensamente como esquiador. "Preciso seguir a neve para poder praticar o esporte. E aí você encontra novas pessoas, novas culturas, países com naturezas totalmente diferentes. Eu passei a me sentir em casa, porque encontrei outras pessoas que estavam nessa mesma jornada".

Para ele, essa capacidade de adaptação se tornou um diferencial crucial em sua carreira esportiva. "No esporte essa é uma qualidade importante. Eu não posso controlar a neve, a qualidade da neve, se tem sol, se está escuro, se está chovendo. Eu preciso aceitar tudo, me ajustar e ser campeão do mesmo jeito", contou, mencionando que pratica terapia e meditação para manter o equilíbrio.

Crescimento do interesse internacional

O interesse por Lucas não se limita ao Brasil nas últimas semanas. A mídia internacional também está atenta, com jornalistas de diversos países presentes no encontro realizado na Casa Brasil, espaço montado pelo COB (Comitê Olímpico do Brasil) em Milão. No dia anterior, o jornal New York Times destacou Lucas como um atleta do Sul Global (países emergentes) para acompanhar nas próximas semanas.

Lucas acumula 20 medalhas em etapas do esqui alpino da Copa do Mundo, sendo 8 conquistadas pelo Brasil, país que representa desde 2024, após deixar de competir pela Noruega. Ele frequentemente ressalta que a troca de confederações foi uma decisão que o libertou para seguir seus próprios objetivos e valores, em vez de "dos sonhos dos outros - da mídia, da indústria, da equipe".

Desafios da solidão e expectativas

No entanto, a escolha não está isenta de momentos negativos, como uma certa solidão em dias difíceis. "Eu estava numa equipe com mais dez atletas do nível de Copa de Mundo. Quando você tem dias ruins, perdendo, a equipe tem outros atletas que entendem a sua situação. Isso foi uma coisa muita linda que tive nessa parte da minha carreira", lembrou.

Ele acrescentou que, em fases complicadas, é possível diminuir a presença no grupo, "se esconder atrás de outros atletas", algo que não existe em sua realidade atual. Para escapar dos holofotes e das altas expectativas pela primeira medalha do Brasil em Jogos de Inverno, Lucas planeja passar os próximos dias na Áustria, focando em treinos.

Preparação para as competições

Sua primeira disputa nos Jogos será no dia 14, em Bormio, uma pista que ele conhece bem, mas que apresentará características diferentes das encontradas em Copas do Mundo. "Não é uma pista muito conhecida para os atletas que competem nas categorias técnicas [como são chamadas as modalidades que ele disputa, slalom e slalom gigante], porque é principalmente uma pista para downhill e super-G", explicou. "É uma pista um pouco mais fácil do que nas de Copas do Mundo, mas que fica mais difícil esquiar rápido".

Acompanhe Lucas Braathen nos Jogos Olímpicos de Inverno:

  • Slalom gigante - 14 de fevereiro (sábado): Descidas 1 e 2 às 6h e 9h30 (Globo, SporTV 2 e Cazé TV)
  • Slalom - 16 de fevereiro (segunda-feira): Descidas 1 e 2 às 6h e 9h30 (Globo, SporTV 2 e Cazé TV)