SBT em encruzilhada: Record rompe vice-liderança histórica e emissora busca sobrevivência
O Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) enfrenta uma das crises mais profundas de sua história, com a Record rompendo a tradicional vice-liderança da emissora nos domingos históricos. Nos dias 15 e 22 de fevereiro de 2026, impulsionada pela transmissão do Campeonato Paulista, a concorrente ficou até doze horas à frente do SBT no ibope, marcando um momento simbólico de declínio para a rede fundada por Silvio Santos.
Queda histórica e perda de bastiões
Nem mesmo o lendário Programa Silvio Santos, comandado pela filha Patricia Abravanel desde a morte do apresentador em agosto de 2024, escapou da derrota. O programa que chegava a incomodar a líder Globo em alguns momentos agora enfrenta a dura realidade de uma audiência em declínio constante. Mais que um revés circunstancial, o baque revela o atual estado de ânimo na emissora, que vem enfrentando uma preocupante crise de audiência refletida diretamente em suas receitas.
Atualmente, a Record possui quase o dobro da audiência do SBT no horário nobre na Grande São Paulo, principal praça publicitária do país. A perda da vice-liderança para a Record já havia ocorrido em 2021, mas a situação se agravou significativamente nos últimos meses.
Estratégias de sobrevivência para 2026
O ano de 2026 se apresenta como uma encruzilhada decisiva para o futuro do SBT. Sob o comando de Daniela Beyruti, outra filha de Silvio Santos, a emissora mobiliza várias armas na tentativa de reverter o viés de baixa. Entre as principais apostas está a transmissão inédita da Copa do Mundo, liderada pela dupla de ex-estrelas globais Galvão Bueno e Tiago Leifert.
Num acordo conjunto com a empresa NSports, foram pagos à Fifa cerca de 25 milhões de dólares pelos direitos para exibir 32 jogos sem exclusividade na TV aberta, competindo diretamente com Globo e CazéTV. Além de esperança para turbinar os números de audiência, a Copa poderá trazer um alívio financeiro providencial.
Iniciativas para recuperação
A criação do SBT News, canal de notícias lançado em dezembro, visa suprir o crônico descaso da emissora com os programas jornalísticos, que tradicionalmente entravam e saíam do ar conforme os humores de Silvio Santos. Em outro front, a empresa busca colher lucros com a Bet do Milhão, plataforma que inclui apostas esportivas, cassino on-line e até o popular "jogo do tigrinho".
O SBT projeta um aumento de 25% em seu faturamento com essas iniciativas, especialmente com a venda de cotas para marcas como Friboi, McDonald's e Seara durante a Copa do Mundo. Segundo publicitário próximo das negociações, a emissora já teve retorno do investimento e projeta uma receita de 3,5 bilhões de reais com o torneio.
Problemas estruturais e instabilidade
Nos bastidores, executivos e ex-funcionários apontam que as causas da crise remontam aos tempos de Silvio Santos e persistem na gestão das filhas. A emissora deixou de cuidar de pilares fundamentais da TV aberta:
- Jornalismo: historicamente negligenciado, com programas entrando e saindo do ar constantemente
- Esportes: perda recente dos direitos da Copa Sul-Americana para a Warner
- Dramaturgia: produção de novelinhas infantis descontinuada há tempos
Outro traço marcante que aparentemente resiste é a tendência a uma programação errática. Em fevereiro de 2026, Daniela Beyruti promoveu mais uma entre inúmeras reuniões recentes para fechar uma nova grade de programação, discutindo alterações como a inclusão de um novo telejornal matinal e a possibilidade de exibir mais uma novela mexicana.
Mudanças na liderança e consequências
A instabilidade se intensificou após a contratação do empresário Rinaldi Faria como conselheiro do canal em novembro de 2024. Ele passou a atuar em decisões que iam da programação ao quadro de executivos, resultando na volta do infantil Bom Dia e Cia, extinto anteriormente por baixos índices de audiência - algo que se repetiu poucos meses depois.
No processo, houve demissões de nomes antigos como Leon Abravanel, sobrinho de Silvio Santos, após 45 anos de casa. Ironia do destino: Faria saiu em novembro de 2025 e Leon já está de volta como vice-presidente de conteúdo.
Desafios nos programas de auditório
Os problemas não poupam nem mesmo o gênero que sempre trouxe mais alegrias ao SBT: os programas de auditório. A contratação de influenciadores como Virginia Fonseca mostrou-se uma boa aposta - o Sabadou chega a liderar a audiência do canal no dia que vai ao ar. Porém, semanas atrás, a celebridade anunciou sua saída para se concentrar em seus negócios, abrindo mais um buraco na programação.
Quanto aos domingos, não há dúvida de que Patricia Abravanel é uma sucessora competente ao posto que o pai eternizou - e tem tudo para crescer. Mas o desafio é imediato: neste domingo 1º de março, a emissora vai enfrentar a transmissão de Palmeiras x São Paulo pela Record, e em 8 de março haverá a final do Paulistão.
O SBT, com faturamento na casa de 1 bilhão de reais por ano e aumento de 12% em 2025, consegue cobrir despesas no azul, mas sem grande margem. As aspirações de recuperação dependem agora do sucesso das novas apostas e da capacidade de estabilizar uma gestão que herdou tanto as virtudes quanto os vícios do fundador Silvio Santos. Os próximos domingos prometem lances dramáticos na luta pela sobrevivência da emblemática emissora brasileira.



