Novelas no streaming perdem fôlego no Brasil: especialista aponta desafios estruturais
Há aproximadamente quatro anos, as novelas produzidas especificamente para plataformas de streaming no Brasil eram vistas como uma grande reinvenção do gênero e uma alternativa promissora à televisão aberta tradicional. Com elencos populares, roteiros bem elaborados e investimentos significativos, títulos como Todas as Flores (2022) do Globoplay, Pedaço de Mim (2024) da Netflix e Beleza Fatal (2025) da HBO indicavam que o formato havia encontrado um espaço fértil fora do modelo convencional.
Desaceleração e intervalos prolongados
No entanto, após esse período inicial de entusiasmo, o ritmo de produção desacelerou consideravelmente. Atualmente, observa-se uma ausência de novos anúncios por parte das plataformas e intervalos extensos entre os projetos lançados. Para Mauro Alencar, consultor e doutor em Teledramaturgia pela USP, essa perda de fôlego não se limita a questões meramente criativas, mas envolve aspectos estruturais mais profundos.
"Em que pese questões jurídicas envolvendo a produção de novelas no streaming, refiro-me ao projeto que regulamenta e tributa esses serviços, não observo uma organização empresarial em torno da produção de novelas para o streaming no Brasil. Vemos uma aqui, outra ali, mas sem uma cadeia sistêmica que movimente o mercado artístico nacional", afirma Alencar em conversa com a coluna GENTE.
Falta de estrutura empresarial e diálogo produtivo
Esse descompasso, segundo o especialista, ajuda a explicar o longo intervalo entre projetos como Beleza Fatal e a releitura de Dona Beja, que, embora tenha estreado recentemente, já foi finalizada pela HBO há algum tempo. "Compreendo que produzir novela é para poucos, pois exige grande estrutura empresarial — o que tem sido a base da Globo desde o início da década de 1970. Assim sendo, se a produtora independente não consegue estabelecer um diálogo produtivo com o streaming e/ou televisão aberta, não há como organizar um núcleo produtivo e serializado", pontua.
Enquanto o Brasil ainda enfrenta dificuldades nesse modelo, outros países encontraram no streaming um meio eficaz de explorar sua dramaturgia em escala global. As novelas turcas representam o exemplo mais evidente desse fenômeno. "Elas se tornaram um desejo de consumo mundial antes mesmo do streaming, quando já estavam consolidadas na televisão aberta", explica Mauro, acrescentando que tais produções encontraram uma fórmula que equilibra o melodrama clássico com temas contemporâneos, como a opressão feminina e as questões de gênero.
Contraste com o sucesso internacional
"São tramas fortes, objetivas, com personagens que não perdem o foco em seus objetivos e que dialogam diretamente com as aspirações emocionais do público", destaca o especialista. Do ponto de vista industrial, segundo Alencar, essas produções rapidamente se globalizaram e se disseminaram pelas plataformas de streaming. "Outro dia estava no metrô e vi um grupo acompanhando avidamente uma novela turca", relata.
Neste contexto, Mauro vê com cautela o anúncio de uma continuação de Beleza Fatal como um possível respiro para o gênero no Brasil. "Vejo mais como uma exceção pelo enorme sucesso da primeira temporada. Sejamos honestos: para criar uma produção sistêmica do formato é preciso uma nova dinâmica entre as empresas de streaming, produtoras independentes e televisão aberta", argumenta.
Necessidade de alinhamento e colaboração efetiva
"Sem um alinhamento entre esses três polos e uma colaboração efetiva entre as empresas, o que teremos são produções esparsas que acrescentam apenas um saldo positivo momentâneo à indústria cultural brasileira. Certamente, nenhuma empresa do mundo da comunicação se desenvolveu dessa maneira", conclui o especialista, enfatizando a importância de uma abordagem mais coordenada e estruturada para o futuro das novelas no streaming no país.