Menino autista de Marília cria monstrinho que 'come' recreio e transforma memórias em livro
Menino autista cria monstrinho que 'come' recreio em livro

Menino autista de Marília transforma preocupação com recreio em livro infantojuvenil

Uma história que nasceu da percepção única de uma criança autista sobre o tempo escolar se transformou em um livro infantojuvenil emocionante. Moradores de Marília, no interior de São Paulo, Angélica Masson, de 36 anos, e seu filho Joaquim, de 12 anos, uniram forças para criar a obra "Come-recreio", que acaba de ser lançada com apoio da Política Nacional Aldir Blanc.

Da preocupação infantil à criação literária

Tudo começou quando Joaquim tinha nove anos e começou a demonstrar uma preocupação incomum com a duração do recreio na escola. Segundo o menino, o tempo destinado às brincadeiras parecia estar diminuindo cada vez mais. Para elaborar essa sensação, ele criou um personagem imaginário: um monstrinho que literalmente "comia" os minutos do recreio.

"Ele começou a notar e se preocupar muito com o tempo do recreio, que parecia estar encolhendo", relembra Angélica, que é advogada especialista em direitos das pessoas autistas. "Para elaborar isso, passou a falar de um monstrinho carnudo que comia o tempo do recreio. Me contava com detalhes incríveis: nome, aparência, manias... e o mais bonito é que cada pedacinho de tempo tinha um gosto diferente para o Come-recreio".

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Projeto selecionado e transformado em livro

A partir dos relatos detalhados do filho, Angélica começou a registrar as ideias e ajudou a desenvolver uma narrativa coesa. O projeto foi inscrito em um edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e, para surpresa da família, foi selecionado entre diversas propostas de escritores experientes.

"Inscrevi a ideia dele em um edital, e ela foi selecionada, entre várias outras de adultos e escritores experientes", comenta Angélica com orgulho. "A ideia dele merecia um livro, e não fui só eu, com o olhar de mãe, que vi isso".

Na história finalizada, o personagem central, o Come-recreio, transita entre um imponente relógio de parede e um monstro faminto por minutos. As ilustrações foram criadas por Paula Mello, que deu vida visual ao personagem, unindo texto e imagem em uma narrativa lúdica e sensível.

Representatividade e fortalecimento de vínculos

Para Angélica, a obra apresenta uma espécie de distopia sob o olhar de uma criança autista, refletindo sobre como a pressa do mundo adulto pode invadir o tempo da infância. "Vivemos em uma era em que até o lazer é cronometrado. 'Mastigar' o tempo devagar é quase um ato subversivo", afirma a autora.

Além do conteúdo literário, o processo criativo fortaleceu significativamente a relação entre mãe e filho. Angélica destaca que o trabalho exigiu respeito ao ritmo único de Joaquim e escuta atenta durante todo o processo.

"A gente sempre foi 'grudinho chiclete', mas escrever o Come-recreio juntos nos trouxe experiências novas que nos fizeram nos conhecer ainda mais profundamente", revela. "Para mim, mergulhar no ritmo único dele, guiado pelo hiperfoco neurodivergente – sem forçar nada, só escuta atenta, respeito ao tempo dele e equilíbrio entre a criatividade pura dele e adaptações difíceis de aceitar".

Lançamento e significado simbólico

O lançamento oficial do livro ocorreu em 7 de fevereiro de 2026, na Biblioteca Municipal de Marília, com atividades voltadas especialmente para crianças. "As crianças se divertiram muito e participaram das atividades de colagem", conta Angélica. "Marília tem famílias que incentivam muito os pequenos leitores, e é bonito fazer parte disso".

Angélica destaca ainda que Joaquim teve alfabetização mais tardia em relação aos colegas, mas hoje mantém uma relação forte com a leitura e a escrita. Para ela, o hábito da leitura carrega um significado simbólico importante: "Ler sem pressa, atento ao que é dito e ao que não é dito, é um gesto de resistência".

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A autora defende a importância da representatividade e da rede de apoio entre famílias de crianças neurodivergentes. "Entender que um livro bom pode ser escrito por uma pessoa autista traz representatividade essencial: quebra estereótipos, valida ritmos e pode trazer esperança para famílias e educadores", afirma. "Inclusão não é pena, é o caminho, é direito".

O próximo passo, segundo Angélica, é persistir unidos. "Mãos dadas com outras mães é uma revolução silenciosa, transformando 'nãos' em direitos reais", conclui, destacando o poder transformador da união entre famílias que enfrentam desafios similares.