Mãe Neide: ancestralidade, fé e resistência afro-brasileira em Alagoas
Entre o aroma marcante do dendê, o som pulsante dos atabaques e a força que atravessa gerações, a história de Alagoas encontra expressão viva no nome de Mãe Neide Oyá D'Oxum. Ialorixá, mulher negra, liderança comunitária e reconhecida como Patrimônio Vivo do Estado, ela transformou a fé em resistência e a resistência em cuidado coletivo, construindo uma trajetória que inspira e fortalece.
Força feminina e enfrentamento permanente
"Ser mulher já é um grande desafio. Comumente falam 'sexo frágil', e eu digo que é o sexo forte. A gente já nasce com a força e a graça divina de gerar", afirmou Mãe Neide em entrevista à TV Asa Branca Alagoas. Mãe biológica e sacerdotisa de matriz africana, ela resume sua própria caminhada como um exercício permanente de enfrentamento contra preconceitos e dificuldades.
"Criar filhos na periferia, ser de matriz africana, ser sacerdotisa e ser Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas, numa terra marcada pela intolerância religiosa e pelo 'Quebra', é um desafio enorme. Eu vim com essa força feminina para vencer", declarou com convicção.
Espiritualidade plural e marcas da intolerância
De acordo com Mãe Neide, a espiritualidade chegou cedo em sua vida, como um chamado ancestral. Na infância, sua vivência religiosa já transitava entre universos distintos: frequentava a igreja, mas também participava, de forma discreta, dos cultos da jurema, rezando tanto a missa quanto para entidades como Seu Zé Pilintra.
Essa junção de experiências a fortaleceu e contribuiu para a construção de um caminho pautado na laicidade, sem preconceitos ou racismo, e baseado no respeito à escolha de cada pessoa. Porém, o percurso não foi feito apenas de celebrações. A intolerância religiosa deixou marcas profundas em sua vida e família.
Uma das dores mais difíceis foi descobrir que sua própria filha, aos 12 anos, escondia o sofrimento para proteger a mãe. "Ela dizia que eu não merecia aquilo, que nossa religião não era aquilo que falavam. Era medo, angústia. Eu cheguei a tomar remédio controlado na época", relembrou com emoção.
Culinária como conexão ancestral
Se a fé sustenta, a cozinha conecta. É ali que a ancestralidade ganha cheiro, cor e memória. Para Mãe Neide, cada prato carrega uma história e uma identidade cultural profunda.
"Quando eu sirvo um bife e digo que, ao vir para a Serra da Barriga, a pessoa não vem só para encher a barriga de alimentação, mas de cultura e história, é porque cada prato que minha ancestralidade me ensinou traz identidade", explicou com sabedoria.
Território sagrado e continuidade cultural
A Serra da Barriga, em União dos Palmares, território símbolo do Quilombo dos Palmares, ocupa lugar central na vida espiritual de Mãe Neide. Ela relata que, depois de pisar naquele solo pela primeira vez, sentiu a mediunidade, a coragem e a força se intensificarem de forma extraordinária.
"Serra da Barriga é vida, é cura, é alimento espiritual, é reencontro", afirmou emocionada, destacando a importância desse espaço histórico para a comunidade afro-brasileira.
O mesmo espírito de continuidade se materializa no Centro de Formação Cultural Inaê, espaço criado por ela para ensinar, acolher e fortalecer a comunidade por meio da cultura e da identidade afro-brasileira. O que começou com a produção de acarajé e roupas de retalho cresceu organicamente.
"Quando eu me dei conta, tinha mais de 60 meninos aqui dentro. Aí vieram a dança, a percussão", contou sobre a expansão natural das atividades do centro.
Legado coletivo e gratidão ancestral
Ao olhar para sua própria trajetória, Mãe Neide fala como quem planta sementes para o futuro. Reconhece que sua caminhada não é individual, mas fruto da força e sabedoria de outras mulheres que vieram antes.
"Primeiro eu peço a bênção das que vieram antes: tia Marcelina, vó Netinha, mãe Celina, minha mãe de santo. Elas não largam nossa mão. Nossa vida é sustentada através da prece, da renúncia, da dedicação e da resistência dessas grandes mulheres", declarou com reverência.
Através de sua história, Mãe Neide Oyá D'Oxum demonstra como a ancestralidade afro-brasileira, a fé e a resistência se entrelaçam para criar espaços de cura, identidade e fortalecimento comunitário, especialmente em um estado como Alagoas, com sua complexa história racial e religiosa.



