Campineira transforma desafio auditivo em técnica musical inovadora
A trajetória musical de Giovanna Andreo começou cedo, aos sete anos, quando o violão entrou em sua vida e rapidamente se tornou uma paixão profunda. Cantar surgiu como uma consequência natural desse amor pela música, e aos 15 anos, ela já tinha a certeza de que queria transformar seu talento em profissão. "Eu sempre soube que gostava de fazer música pelo impacto que ela causa nas outras pessoas, não apenas por fazer música para mim", revelou a artista, destacando a conexão emocional que a motiva.
Diagnóstico inesperado muda a perspectiva
Aos 21 anos, em 2014, Giovanna enfrentou um momento decisivo. O que sua mãe interpretava como desatenção era, na verdade, um sinal de alerta para uma condição mais séria. "Ela começou a chamar muito minha atenção: 'Ó, presta atenção quando eu estou falando, você nunca entende de primeira, eu sempre tenho que falar duas vezes'", recordou a cantora. Buscando esclarecimentos, ela consultou um otorrinolaringologista, inicialmente pensando em uma simples limpeza no ouvido.
No entanto, o médico solicitou uma audiometria por precaução, e o resultado trouxe um diagnóstico impactante: surdez neurossensorial bilateral progressiva. Essa condição envolve a perda gradual e permanente da audição em ambos os ouvidos, onde o cérebro deixa de reconhecer os impulsos sonoros enviados. "Descobrimos que eu já tinha ali um grau bem razoável de perda auditiva neurossensorial", explicou Giovanna, enfatizando a natureza irreversível da doença.
Adaptação e descoberta de uma nova forma de sentir a música
Após o diagnóstico, Giovanna passou por um processo intenso de aceitação e adaptação. "Naquele dia, eu acordei de manhã e era exatamente a mesma pessoa do dia anterior. Mas parecia que, a partir daquele momento, tinha um rótulo de pessoa com deficiência, tinha a questão da surdez para entender e carregar", relatou. A cantora começou a enfrentar dificuldades para ouvir sons graves, mas seu corpo, intuitivamente, buscou uma solução criativa.
Ela percebeu que, após os shows, sentia dores intensas no corpo, resultado de uma pressão excessiva no violão. "Eu comecei a perceber que estava 'espremendo' o violão, apertando cada vez mais porque meu corpo, de alguma forma, já estava aprendendo a captar a vibração do instrumento", disse. Giovanna desenvolveu uma técnica única, onde as vibrações emitidas por cada nota do violão, especialmente as mais graves que não consegue mais ouvir, se tornaram uma referência tátil para guiar sua performance.
Carreira em ascensão e inspiração para muitos
Apesar dos desafios, Giovanna não abandonou a música. Ela continuou a se apresentar, inclusive para milhares de pessoas no Rock in Rio 2022, demonstrando que a surdez não é um impedimento para sua arte. Sua história de resiliência e inovação foi registrada no livro "Propósito enCanta", que visa inspirar outras pessoas a enfrentarem adversidades com coragem.
"Quando descobri a surdez, saber por que eu fazia aquilo, por que estava fazendo música, foi um diferencial muito grande em como lidar com tudo que aconteceu. Eu não consigo olhar para essa situação de forma negativa. Hoje percebo o quanto isso me trouxe oportunidades e abriu portas", comentou a cantora, refletindo sobre a transformação positiva que a experiência proporcionou.
A jornada de Giovanna Andreo é um testemunho poderoso de como a criatividade e a determinação podem superar limitações físicas, transformando um obstáculo em uma nova forma de expressão artística que ressoa com milhares de fãs e admiradores.



