Arte nas ruas como ferramenta de inclusão e representatividade em Rio Claro
Caminhar sob um quebra-cabeças com espaços vazios. Essa é a metáfora que muitos pais enfrentam ao descobrir que seus filhos têm o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em Rio Claro, interior de São Paulo, um casal transformou o susto inicial do diagnóstico em uma poderosa expressão artística que colore as ruas da cidade.
Do diagnóstico à expressão criativa
Gustavo Rosa Neto e Patrícia Vieira, pais de Benício, de 7 anos, receberam a notícia do autismo do filho com grande impacto emocional. "Ficamos sem chão", descreveu Gustavo, que admitiu conhecer pouco sobre o transtorno além do que havia visto em filmes e televisão. Diante do diagnóstico, o casal iniciou uma busca por terapias, treinamentos e orientações especializadas.
Foi na pintura, uma paixão antiga de Benício, que encontraram uma maneira singular de ajudá-lo. Passar o pincel em trechos cinzas da vida tornou-se a metáfora que Guga e Pat Slater, como são conhecidos artisticamente, adotaram para colorir os medos e desafios. Patrícia explica: "Ele ama pintar, mexer com tintas. Desde pequeno gostava muito de guache. Eu me sinto muito feliz porque através dele, ele pode incentivar outros a serem como ele ou a serem o que quiserem ser na área que mais gostam".
Três anos de cores e conscientização
Há mais de três anos, o colorido feito pelas mãos da família ganhou espaço público em Rio Claro. Suas obras lembram que o autismo é uma realidade presente, reforçam a necessidade de inclusão e frequentemente apresentam o símbolo do quebra-cabeça dentro de um coração - uma referência ao TEA. "Para a causa ser vista. Sempre ouço aquele ditado popular: Quem não é visto, não é lembrado", pontua Gustavo sobre a motivação do projeto.
A arte da família não passa despercebida. Quem circula pelas ruas da cidade observa e admira não apenas as pinturas vibrantes, mas também o carinho evidente entre pais e filho. O comerciante Décio Dourado é um dos impactados pelo gesto: "Bonito o que ele está fazendo e como ficou a Avenida da Saudade aqui. É um exemplo, ainda mais hoje que está bem aflorado, na realidade, o autismo. Cara, eu acho que isso aí é um exemplo".
Comunicação além das palavras
Benício enfrenta dificuldades de verbalização e não fala muito, mas encontrou na pintura uma linguagem própria para se comunicar e expressar sentimentos. A forte ligação com o pai também o ajuda a interpretar e traduzir emoções. Gustavo descreve o processo criativo do filho: "Liberdade total. Ele pega na tinta, interage com as pessoas que passam e mostra para mim, às vezes quer uma outra cor, ele escolhe. Então, ele tem liberdade para ser ele".
O projeto artístico tem gerado impactos além do esperado. O pai conta que passou a conhecer outros autistas e seus familiares, pessoas que antes viviam mais reclusas, mas que agora estão ganhando mais visibilidade através da arte pública. O objetivo central é fazer com que essas pessoas se sintam abraçadas, acolhidas e amadas pela comunidade.
O que começou como uma estratégia terapêutica familiar transformou-se em um movimento de conscientização que transforma espaços urbanos em galerias a céu aberto, promovendo diálogos sobre inclusão, aceitação e as múltiplas formas de expressão humana.



