A artista, escritora e aventureira americana Tessa Hulls fez história ao se tornar a segunda quadrinista a vencer o prestigiado Prêmio Pulitzer, honraria que dividiu neste ano com a conquista do Prêmio Eisner, o Oscar da indústria americana de quadrinhos. Sua premiada graphic novel, lançada no Brasil como Meus Fantasmas (Quadrinhos na Cia), é um mergulho profundo e visceral na história de três gerações de mulheres de sua família.
A trama tem como ponto de partida a trajetória de sua avó, Sun Yi, uma jornalista que fugiu da China comunista para Hong Kong no final dos anos 1940 e, posteriormente, sofreu um colapso mental irreversível. O trauma e o fardo dos cuidados recaíram sobre a filha de Sun Yi, Rose — mãe da autora —, o que gerou um ciclo de dor e codependência que atravessou décadas. Em Meus Fantasmas, Hulls narra não apenas essa fuga histórica, mas também a sua própria jornada pessoal para confrontar o passado e curar a relação atribulada com a genitora.
Entrevista exclusiva com Tessa Hulls
A seguir, você confere uma entrevista exclusiva com a autora sobre o seu processo criativo, a indústria dos quadrinhos e o impacto transformador que o projeto teve em sua família.
Desde o clássico Maus, de Art Spiegelman, temos visto muitos quadrinistas resgatando histórias familiares. Como enxerga essa tendência e o lugar do seu trabalho dentro dela?
Acredito que não podemos definir o presente sem entender o que deu origem a ele. No caso do meu livro, sabia que parte do desentendimento entre minha mãe e eu existia porque havia uma história que desconhecia. O surgimento de tantas obras voltadas para o passado se deve, em parte, ao mundo globalizado e à internet, que tornaram o acesso à informação muito mais íntimo e nos permitem enxergar os grandes arcos históricos. Nossas relações familiares são as coisas mais complexas e cheias de nuances em nossas vidas, e tentar entendê-las apenas a partir do presente é impossível. Como alguém que adora trabalhar com registros históricos, sinto que meu trabalho como artista é voltar àquele estado de uma criança de sete anos e perguntar repetidamente: “Mas por quê?”. E se você começa a perguntar o porquê, isso invariavelmente o leva para o passado.
A sua mãe chegou a ler a obra finalizada?
É complicado. Eu compartilhei muitas páginas com ela enquanto trabalhava no livro, mas queria esperar que estivesse mais avançado para mostrar os arcos principais. Infelizmente, minha mãe teve um avanço severo no quadro de Alzheimer cerca de seis meses antes do lançamento. Então, quando o livro ficou pronto, ela já não tinha condições cognitivas de sentar e ler do começo ao fim. Mas, de certa forma, acho que a demência fez com que nós duas entendêssemos como a nossa relação mudou, porque assumi o papel de cuidadora. Nós conseguimos encontrar muita leveza e brincadeira em meio a algo muito triste. Por isso, sinto que a mensagem do livro e o impacto dele na nossa relação tiveram sucesso absoluto, mesmo sem ela ter conseguido ler.
Como você avalia o papel das mulheres na indústria dos quadrinhos hoje, como Nora Krug e outras artistas de destaque?
Eu adoro a Nora Krug! O livro dela, Heimat (Quadrinhos na Cia), foi uma grande influência para mim, especialmente pela forma genial como ela usou documentos de arquivo na montagem das páginas. Sobre as mulheres nos quadrinhos em geral, vou responder fazendo um paralelo: eu jogava rugby na faculdade. Depois de formada, acabei jogando no time masculino, e era um esporte completamente diferente, baseado na força bruta. Já no rugby feminino, havia muito mais fluidez, era sobre utilizar ângulos e velocidade. Isso me ensinou muito sobre como homens e mulheres navegam pelo mesmo ambiente, dadas as formas como o mundo é (ou não) construído para eles. Como os quadrinhos são uma esfera tradicionalmente dominada por homens, as mulheres precisaram trazer muito mais desse movimento e dinamismo para a indústria.
Antes de mergulhar neste livro, você viajou muito e se dedicou a esportes intensos. Qual foi a razão disso?
Eu fiz isso porque vi essa história devorar duas gerações de mulheres na minha família, e sabia que, se entrasse nela antes de estar pronta, ela me devoraria também. Precisava saber que eu era forte o suficiente para carregar essa história até o fim, e aprendi a confiar nisso através do meu corpo. Para mim, meu corpo é muito mais inteligente que a minha mente. Quando estou criando, é uma ação muito física; busco capturar no papel aquela sensação de movimento, como escalar uma montanha ou descer uma ladeira de bicicleta. Então, essas aventuras físicas nunca foram apenas um passatempo, elas são a verdadeira fundação da minha vida criativa.
E como funciona o seu processo criativo? Você é adepta do digital ou prefere o papel?
Eu desenho inteiramente à mão. Acredito que, assim como no mountain bike ou na corrida, você cria uma relação com o traço. O digital não te dá a sensação de ter que se comprometer com algo que não pode ser desfeito. No meu processo, pego grandes folhas de papel e simplesmente escrevo e desenho ao mesmo tempo, de forma híbrida. O texto e a imagem evoluem em uníssono. Eu nunca segui o processo tradicional de fazer quadrinhos — escrever o roteiro, fazer esboços, passar o lápis e depois a tinta —, porque eu morreria de tédio. Se eu fizesse assim, na hora de aplicar a tinta já não restaria nenhuma criatividade no processo.
O que significa para você ser a segunda quadrinista da história a ganhar um Pulitzer, seguindo os passos de Art Spiegelman com Maus?
Acredito verdadeiramente que, se Maus não tivesse derrubado todos os obstáculos, nenhum de nós existiria hoje. Art Spiegelman quebrou o molde e abriu espaço para inúmeras vozes. Sinto uma imensa honra e gratidão por esse legado. Ganhar esses prêmios me fez repensar meus valores como artista: quero usar a visibilidade que ganhei para ajudar outras pessoas a passarem pelos “guardiões” do mercado e trazerem mais vozes para a indústria. Quero que meu trabalho traga mais conexões humanas para o mundo.
Vivemos na era da Inteligência Artificial e das redes sociais. Qual é a sua visão sobre o impacto disso na arte?
As pessoas têm fome de autenticidade, e nós somos biologicamente programados para reconhecê-la. Pelo menos até agora, os modelos de IA não conseguem replicar isso. Acredito que a marca humana na arte será cada vez mais valorizada em um mundo onde ela está se perdendo, o que pode trazer um retorno ao trabalho manual. Quanto às redes sociais, são ferramentas poderosas, mas o lado negativo é que você acaba criando arte pensando na recepção do público, o que me tira o foco profundo que considero essencial.
Durante suas viagens de pesquisa à China em 2016 e 2018, o que você mais aprendeu?
A principal coisa que aprendi é que não há lugar no mundo onde eu seja “menos chinesa” do que na China. As pessoas de lá achavam cômica a ideia de eu me considerar chinesa, o que gerou um senso mútuo de “você não pertence a este lugar”. Além disso, notei um ciclo de aproximadamente 70 anos na história. Estive lá quase sete décadas após a ascensão comunista e vi como estamos em um momento global de negação e reescrita violenta do passado. Espero que seja realmente apenas um ciclo e que essa fase ruim logo evolua para algo melhor, mas o momento atual me assusta.
O título original do livro é Feeding Ghosts (Alimentando Fantasmas). Aqui no Brasil, foi traduzido como Meus Fantasmas. O que achou dessa mudança?
Eu sou fascinada por tradução. Boa parte do livro aborda justamente o que perdemos quando não falamos um idioma. Quando minha editora brasileira me explicou que a tradução literal não soaria tão bem, confiei plenamente neles. Gostei de Meus Fantasmas porque o título ainda mantém o sentido de estar em relacionamento com alguma coisa.
Para encerrarmos, você já tem novos projetos em andamento?
Sim! Estou fazendo jornalismo em quadrinhos junto com cientistas de campo. Trabalhei com um biólogo marinho em uma história sobre a onda de calor nos oceanos do Alasca e estou fazendo outra matéria sobre as sequoias em Yosemite. Além disso, comecei um projeto completamente novo. Ainda é cedo para dar detalhes, mas adianto que estou trabalhando em algo “silencioso e grandioso” sobre bibliotecas.



