A atriz Isabella Santoni está prestes a completar 30 anos, em maio, e vive um momento de intenso amadurecimento pessoal e profissional. Em entrevista exclusiva à coluna GENTE, ela compartilha suas reflexões sobre a experiência de contracenar com Luiz Fernando Guimarães na comédia Baixa Sociedade, clássico de Juca de Oliveira que teve sua temporada prorrogada em São Paulo devido ao enorme sucesso de público.
O impacto de Baixa Sociedade
Para Isabella, a prorrogação da temporada é um termômetro honesto do trabalho. “Teatro se sustenta com público. O que mais me marca é a forma como o público se reconhece, identifica situações familiares e reage a isso através do riso. É uma comédia, mas tem um desconforto, porque a peça toca em comportamentos que soam estruturais da sociedade brasileira”, explica.
Diálogo com o presente
Escrito em 1979, o texto de Juca de Oliveira continua atual. “O mais forte é perceber que o texto não envelheceu em muitos aspectos, o que tem também seu desconfortável. A peça fala de comportamento, de relações, dessas pequenas concessões que a gente vai normalizando. Hoje o discurso mudou, mas, no fundo, muita coisa continua igual e precisa evoluir concretamente”, reflete a atriz. A montagem ganhou um significado ainda mais forte após a morte do autor. “Parece que aumentou a nossa responsabilidade em manter o texto vivo, uma vontade maior de honrar essa história.”
Parceria com Luiz Fernando Guimarães
Isabella não poupa elogios ao colega de cena. “Luiz é um dos grandes presentes desse projeto. Hoje, tenho a alegria de poder chamá-lo de amigo. Além da admiração, construímos uma relação viva. Ele é extremamente generoso e me surpreende o tempo todo, isso mantém a troca pulsando. É um ator que ama o jogo do momento presente, gostamos de surpreender um ao outro, de testar caminhos diferentes a cada apresentação.”
Rotina e autocuidado
Fora dos palcos, Isabella busca atividades que a reconectem. “Tento buscar coisas simples, que me reconectem. Estar perto do mar, por exemplo, me reorganiza, tem algo ali que desacelera e me ensina a respeitar o tempo das coisas. Também gosto de me desligar assistindo filmes, lendo, contemplando arte… tudo isso acaba alimentando meu trabalho de alguma forma. E tem um lado meu que é mais curioso, inquieto. Tenho me interessado cada vez mais pela criação por trás da câmera, desenvolvendo projetos.”
Sobre saúde mental, ela destaca a importância da terapia e dos esportes. “Fui entendendo que não dá pra esperar o equilíbrio vir de fora, tento construir isso no meu dia a dia. Terapia é uma base importante, me ajuda a organizar o que estou sentindo. Também gosto de fazer esporte, isso impacta minha cabeça, é quando consigo desligar.”
Teatro versus audiovisual
Com experiência em séries como Dom, Isabella compara as duas linguagens. “Muda a relação com o tempo e com o controle. No audiovisual, você constrói a cena em partes e só entende o resultado completo depois, na edição. No teatro, a cena acontece inteira, em fluxo, e se constrói ali, junto com a plateia. Você também não tem controle, mas por outro motivo, tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Isso exige uma escuta e presença mais contínuas. No audiovisual, a relação é mais silenciosa, mas igualmente potente.”
Vida a dois com Henrique Blecher
Isabella e o produtor Henrique Blecher equilibram agendas intensas com parceria e flexibilidade. “A gente entende que equilíbrio não é algo fixo, é um ajuste constante. Tem fases em que o trabalho exige mais de um, outras do outro, por vezes muito dos dois. O mais importante é ter essa escuta e flexibilidade. Ao mesmo tempo, a gente cuida muito do que é nosso. No fim, é sobre parceria mesmo, de apoiar, respeitar os momentos e crescer junto, sem perder a individualidade.”
Ela reflete sobre os aprendizados da vida a dois. “A vida a dois me trouxe uma consciência maior de construção. De entender que tudo é escolha: nosso tempo, energia, prioridades, e que essas escolhas têm impacto não só em mim, mas no outro também.”
Planos futuros
Olhando adiante, Isabella busca desafios que a tirem da zona de conforto. “Tenho buscado projetos que me tirem do lugar confortável, personagens que não se revelem de forma óbvia e que tenham contradição. Me interessa cada vez mais, quando possível, claro, estar também envolvida no processo como um todo, não só como atriz, mas também no desenvolvimento, pensando narrativa e estética. Criando desde a origem. Hoje, inclusive, estou desenvolvendo um projeto ainda em sigilo, atuando também como produtora e consultora de roteiro, e tem sido um processo muito rico nesse sentido.”



