Imagem de São Francisco no Lago de Furnas revela história submersa de Guapé
Imagem de São Francisco revela passado submerso de Guapé

No meio das águas do Lago de Furnas, em Guapé, Minas Gerais, uma imagem de São Francisco de Assis emerge como um dos símbolos mais marcantes da história local. Ela representa fé, memória e a própria origem do município, que foi inundado pela formação do reservatório. Durante duas semanas, uma expedição especial percorreu o lago na iniciativa "Travessia das Águas", destacando a dimensão, importância econômica e as narrativas de quem vive em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste brasileiro.

Origens históricas e a promessa de Dona Esméria

Segundo a curadora do Museu Casarão de Guapé, Laura Maria Simões, a história começa no século XIX, com um episódio que atravessou gerações. Em 1826, moradores relatam que um forte abalo sísmico atingiu a região. Na época, Dona Esméria Angélica da Pureza, esposa do capitão José Bernardes Ferreira Lara, vivia um momento de rotina doméstica quando foi surpreendida pelo tremor.

"Ela estava fazendo doce ou sabão, tem pessoas que falam que era doce, outras dizem sabão... e esse abalo foi tão forte que o tacho virou", relata Laura. Diante do susto, Dona Esméria fez uma promessa: doaria um pedaço de terra para a construção de uma igreja dedicada a São Francisco de Assis, santo a quem recorreu naquele momento de aflição.

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"Ela prometeu, nesse momento, um pedaço de terra para erigir a igreja em honra de São Francisco, porque foi para ele que ela se apegou", explica a curadora. A promessa foi cumprida anos depois, quando a doação foi efetivada em 1839.

Construção e transformações da igreja

A partir da doação, teve início a construção da primeira igreja, que se tornaria o núcleo da formação de Guapé. Ao longo dos anos, o templo passou por diversas transformações. "Ela passou por várias reformas até chegar naquela igreja mais completa, já no começo do século XX", afirma Laura. "Não tinha a torre, depois fizeram; não tinha capelas laterais, depois foram construídas."

Antes disso, o local já havia ganhado importância religiosa. "Em 1874, ela se tornou freguesia, então já tinha o próprio padre", diz. Décadas depois, com a formação do Lago de Furnas, a antiga igreja foi inundada. Hoje, o principal vestígio visível daquele espaço é a imagem de São Francisco posicionada no lago, exatamente no ponto onde ficava a igreja.

A imagem que sinaliza o passado submerso

"A imagem de São Francisco sinaliza o local da igreja antiga. Para a comunidade guapense, ela é o nosso padroeiro, mas a importância dela é marcar onde existiu esse espaço", explica a curadora. Outra narrativa popular reforça o vínculo com o passado. A imagem original de São Francisco, hoje na igreja nova, foi transferida em procissão após a mudança do templo.

Durante o trajeto, um detalhe chamou a atenção dos moradores. "Perceberam que ela não estava virada para frente, mas para trás. E o povo acredita que ela estava olhando para a igreja antiga, como se não quisesse ir para a nova", conta Laura. A interpretação simbólica fortaleceu ainda mais a conexão entre fé e território, uma relação que permanece viva mesmo após as transformações trazidas pelas águas.

Significado cultural e memória coletiva

A imagem de São Francisco no Lago de Furnas não é apenas um marco físico, mas um símbolo profundo de resiliência e identidade para os moradores de Guapé. Ela serve como um lembrete constante da história submersa, conectando gerações através da fé e da memória coletiva. A expedição "Travessia das Águas" ajudou a documentar e preservar essas narrativas, destacando como comunidades adaptam-se a mudanças ambientais significativas.

Além disso, o Lago de Furnas, como um dos maiores reservatórios do Brasil, desempenha um papel crucial na economia regional, sustentando atividades como pesca e turismo. A história de Guapé ilustra como eventos naturais e intervenções humanas podem moldar paisagens e culturas, com a imagem de São Francisco servindo como um testemunho silencioso desse processo.

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