HQ de Briga: Do Digital ao Impresso, um Gibi que Fala a Língua dos Games
Com o recente lançamento de HQ de Briga pela editora JBC, o ilustrador e quadrinista Silva João consolida uma trajetória artística que começou longe dos quadrinhos. Natural de São Paulo e criado em Rio Claro, no interior paulista, João Paulo Silva, seu nome de batismo, se formou em Letras pela USP após uma passagem pelas ciências exatas. Foi nessa transição que ele descobriu nos quadrinhos o espaço ideal para unir desenho e narrativa.
Da Web para as Páginas: A Jornada de uma Obra Viral
Sua estreia profissional ocorreu em 2018, com Combo Breaker, ao lado do roteirista Angelo Dias. Um ano depois, a webcomic HQ de Briga viralizou no Twitter, rendendo edições impressas via Catarse, pelo Atelier Compacto. A obra é uma aventura de ação e comédia com pitadas de metalinguagem, onde os personagens enfrentam problemas justamente por estarem dentro de uma história. O reconhecimento veio em 2020, com o Troféu HQ Mix na categoria Web Tira.
Como surgiu HQ de Briga e em que momento você decidiu levar a obra da internet para uma publicação de fôlego? Começou como uma brincadeira entre projetos de trabalho, quando atuava como ilustrador e animador. Eu queria contar minhas próprias histórias e percebi que essa era uma que conseguia inventar enquanto desenhava. Por um ano, mantive a HQ restrita a umas vinte pessoas, até que, em 2019, fui para o Twitter, divulguei e alcancei muito mais gente. O pessoal começou a pedir uma versão impressa, então fiz um financiamento pelo Catarse para lançar o volume de forma independente com minha companheira, que é produtora gráfica. Vendemos em eventos como a CCXP, mas a pandemia fez com que eu desse uma pausa no projeto para liderar trabalhos em um estúdio de animação por quatro anos. Até que o Marcelo Naranjo, da editora JBC, me procurou com a proposta de trazer de volta gibis brasileiros independentes. Eu já queria publicar por uma editora há muito tempo, então aceitei imediatamente.
Mudanças Estruturais e Conteúdo Exclusivo
Já existia uma edição independente — quais foram as principais mudanças para essa nova versão da JBC? Tivemos várias mudanças estruturais. Antes o lettering era feito à mão e não havia revisão; agora contamos com revisão profissional e uma equipe de design dedicada. Eu também refiz todas as aberturas de capítulo deste volume. Na webcomic, costumo convidar amigos para desenharem as capas de cada capítulo, mas para o livro impresso quis algo mais orgânico, para que o leitor sinta que tem nas mãos um livro único — não uma revistinha de banca. Além disso, criei um capítulo extra exclusivo para o final: o protagonista enfrenta um monstro no banheiro de uma rodoviária. A ideia é que todo livro impresso tenha um capítulo que não está na internet. O volume dois já está bem adiantado e a expectativa é lançá-lo ainda este ano pelo selo JBStudios; a intenção é terminar a série em quatro volumes — um box fechadinho onde conto tudo o que quero contar.
Uma Exploração Metalinguística em Forma de Ação
Como você definiria HQ de Briga não apenas em seu formato, mas tematicamente? Gosto de definir a obra como uma exploração metalinguística em forma de ação e comédia. Como sou formado em Letras, tenho interesse na história da literatura e em como os temas evoluíram com o tempo: começou com o homem contra a natureza, virou o homem contra Deus, depois o homem contra a sociedade e, por fim, o personagem contra o autor. Achei muito interessante contar uma história em que os personagens enfrentam problemas justamente porque estão dentro de uma ficção. A narrativa serve de palco para uma aventura de porrada enquanto discute temas como força criativa e agência do personagem. Eu pergunto aos personagens o que fariam e os deixo agir — sinto que estou apenas observando, não controlando.
O Digital e o Impresso: Duas Faces da Mesma Moeda
Seus personagens nasceram no meio digital. Como você enxerga a leitura de quadrinhos em telas, já que muitos leitores ainda resistem a esse formato? Acho o digital maravilhoso pela acessibilidade e pela facilidade de difundir histórias. Durante a pandemia, foi excelente poder ler muito sem precisar sair para comprar, e eu mesmo desenvolvi o gosto por telas — cheguei a ler O Senhor dos Anéis no iPad sem nenhum problema. Obviamente, adoro a mídia impressa, o diálogo entre tinta e papel, e tenho o fetiche de pegar no livro. Mas, objetivamente, o digital é uma escolha excelente para quadrinhos porque permite que o autor se autopublique de forma rápida e muito barata. As webcomics ajudaram uma nova geração inteira de artistas a começar, assim como os blogs fizeram dez ou quinze anos atrás. Eu só tenho a agradecer ao formato.
Mangá ou Gibi Brasileiro? Uma Questão de Identidade
A JBC é uma editora historicamente especializada em mangás. HQ de Briga é, de fato, um mangá — ou essa classificação é acidental? Pessoalmente, não o considero um mangá; prefiro tratá-lo como um gibi brasileiro. Mas entendo perfeitamente por que a JBC o enxerga e categoriza dessa forma. Existe uma grande semelhança de temas com obras como Dragon Ball ou Yu Yu Hakusho: tem o torneio, a luta, o treinamento, os poderes. Quem consome mangá encontra em HQ de Briga um terreno familiar. Comercialmente, faz todo sentido. O desafio, porém, é garantir que quem não lê mangá não fique com receio de se aproximar da obra achando que ela é exclusiva para o público otaku.
O Boom dos Quadrinhos no Brasil: Fatores e Oportunidades
Vivemos hoje um boom de quadrinhos no Brasil, com projetos independentes e financiamentos coletivos batendo metas. A que você atribui essa oferta crescente? A barreira de entrada se dissolveu muito. Quase todo desenhista começou criança dividindo a página do caderno em quadrados e desenhando bonecos palito. Hoje, as pessoas perceberam que podem se autopublicar de um jeito viável. O quadrinho também é uma grande ferramenta para treinar narrativa visual e escrita — e, como fazer um filme ou um videogame exige uma equipe enorme, muita gente que quer contar histórias encontra nos quadrinhos o meio ideal. A popularidade do Catarse e a quantidade de campanhas bem-sucedidas ajudaram a mostrar que é possível. Fazer quadrinhos no Brasil se tornou algo factível, e muito legal.
Futuros Projetos: Do Jogo à Animação
A obra tem muita cara de videogame e uma dinâmica rítmica bastante singular. Existe algum plano de transformar HQ de Briga em jogo ou em série de animação? Sim, projetos existem para os dois. O Desenho de Briga já foi desenvolvido quando eu trabalhava no Combo Studio, mas está na gaveta porque o mercado de animação encolheu e os streamings estão arriscando menos em propriedades intelectuais novas. O projeto de jogo talvez seja mais factível — embora eu ainda esteja na fase de ideias iniciais. Criar um jogo de HQ de Briga é, sem dúvida, um sonho meu.
Próximos Passos e Agenda Cheia
Para fecharmos: no que mais você está trabalhando atualmente? Falei em videogames porque estou, de fato, desenvolvendo um agora — mas não é do HQ de Briga. Conseguimos financiamento por meio de um edital e estou criando com uma equipe um jogo narrativo de quebra-cabeças. Fora isso, desenho HQ de Briga todos os dias, pretendo retomar a minha loja online e tenho a agenda cheia de feiras de quadrinhos pelo Brasil — como o Circuito Amazônico de Quadrinhos, em Manaus, e o Motim, em Brasília. E, claro, o volume dois deve chegar às prateleiras até o ano que vem.



