Megamural e estátua homenageiam Naná Vasconcelos no Recife
Um impressionante megamural de 200 metros quadrados na fachada de um prédio no bairro da Boa Vista, Centro do Recife, retrata Naná Vasconcelos com os olhos fechados, tocando seu característico berimbau. A obra chama a atenção de transeuntes próximos ao Parque Treze de Maio, enquanto uma estátua do artista também o mostra com o instrumento nas mãos no Marco Zero, local do principal palco do carnaval recifense. Oito anos após seu falecimento em 9 de março de 2016, o músico permanece vivo em pontos turísticos, centros de pesquisa, escolas e na memória de quem conviveu com ele.
"Isso é pouco para o que Naná representa"
Patrícia Vasconcelos, viúva e curadora da obra do artista, reconhece o valor das homenagens, mas ressalta que não contam toda a história. "É bacana que se faça o mural, mas isso não está contando a história dele, é só mais um ponto de referência. A estátua é linda, mas isso é pouco para o que Naná representa. Naná teve muita profundidade no trabalho dele", afirmou. O reconhecimento do percussionista transcende as fronteiras pernambucanas: ele foi eleito nove vezes melhor percussionista do mundo pela revista Down Beat, venceu oito Grammys e por 15 anos comandou a abertura do carnaval do Recife.
Doutor Honoris Causa e último berimbau
Em 2015, meses antes de falecer aos 71 anos, Naná recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, reconhecendo sua contribuição ao ensino e difusão musical. Patrícia relembra emocionada: "Ele ficou muito feliz. Foi justamente na época em que ele estava doente. O teatro ficou cheio, e ele tocou o berimbau. Talvez essa tenha sido a última vez que ele tocou completamente a peça que tinha preparado". Na cerimônia, o artista, que lutava contra um câncer de pulmão, reuniu amigos e admiradores.
Educador natural e "encruzilhada de saberes"
Além de músico, Naná era considerado pesquisador e educador, ensinando em escolas, projetos e instituições no Brasil e exterior, incluindo Nova Iorque e o Morro da Conceição no Recife. Lucas dos Prazeres, mestre de cultura popular que trabalhou com ele por mais de 12 anos, descreve: "Eu gostaria de deixar registrada a imagem de Naná como uma encruzilhada de saberes. Uma encruzilhada que conecta pessoas, porque o tempo inteiro pessoas estavam se conhecendo através dele". Essa capacidade de valorizar singularidades fez dele um formador de talentos, com discípulos como Gilú Amaral e Mestre Lua perpetuando seu legado percussivo.
Escola de Música e influência familiar
Para continuar seu poder formativo, a UFRPE criou a Escola de Música Naná Vasconcelos, onde o maestro Ewerton Marinho ensina percussão com foco em experimentação e improvisação. "As escolas formais de música são muito tradicionais, conservadoras. Porque é um molde europeu que veio para o Brasil e a gente repete. É uma colonização", critica Marinho, que considera Naná um "mestre póstumo". A influência artística também alcançou sua filha, Luz Morena Vasconcelos, de 26 anos, hoje curadora de moda em Nova York: "A presença do meu pai influenciou muito minha relação com as artes, por ele ser um artista tão amplo".
Acervo "suficiente para um museu" e busca por espaço
A família mantém um extenso acervo com vídeos, fotos, instrumentos e registros históricos, mas ainda não há um local permanente para conservação e exposição pública. Parte está no Museu de Artes Afro-Brasil Rolando Toro, outras em exposições nacionais e internacionais ou com a família. Patrícia revela: "Eu tenho material suficiente para um museu. A história de Naná é suficiente para um museu". Embora tenha recebido propostas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, ela prioriza Pernambuco, onde Naná nasceu e passou seus últimos dias.
Articulações governamentais e lentidão
A prefeitura do Recife informou que "várias articulações já foram feitas" para salvaguardar o legado, com debates em 2021 sobre um espaço cultural dedicado ao artista, porém, cinco anos depois, nenhum museu foi criado. Em 2025, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães recebeu a Ocupação Naná Vasconcelos, que depois seguiu para o Rio de Janeiro. O governo estadual, através da Secretaria de Cultura, reuniu-se com Patrícia em maio de 2025, avaliando um equipamento cultural para abrigar um Centro de Referência e Pesquisa, mas "as tratativas seguem em andamento" aguardando definições da família.
Cidadão do mundo com raízes pernambucanas
Naná foi verdadeiro cidadão do mundo, morando no Recife, Paulista, Olinda, Rio de Janeiro, Paris e Nova Iorque, mas sempre reverenciou suas origens. A fotobiografia "Naná: do Recife para o mundo", organizada pelo jornalista Augusto Lins Soares, retrata esse trânsito cultural. "Naná é uma artista do Recife, mas que ganhou o mundo. E, digamos, o mundo também ganhou ele", afirma Soares. Seu retorno ao Recife no início dos anos 2000 o tornou figura central na abertura do carnaval, onde redefiniu a organização do evento segundo Moisés de Melo Santana, coordenador da Cátedra Naná Vasconcelos na UFRPE.
Cátedra e carnaval como legado vivo
A Cátedra Naná Vasconcelos, formada por artistas, pesquisadores e estudantes da UFRPE, movimenta pesquisas, projetos de extensão e formações, incluindo um livro previsto para maio de 2026 sobre sua dedicação ao carnaval. Santana comenta: "Nós acreditamos, com uma certa indignação e espanto, que tanto no estado quanto na prefeitura, as iniciativas são muito tímidas em torno da obra de Naná. A gente acredita na importância de ter um memorial para a cidade". Assim, enquanto megamurais e estátuas marcam presença física, a luta por um museu adequado continua, mantendo viva a memória de um dos maiores percussionistas da história brasileira.
