No bicentenário da imigração alemã, São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, celebra suas origens ligadas à chegada dos primeiros imigrantes germânicos ao Brasil. Em 25 de julho de 1824, um grupo de 39 pessoas desembarcou às margens do Rio do Sinos, estabelecendo a primeira colônia oficial alemã no país.
Projeto estratégico do Império
Segundo o historiador Michel Ramos, a imigração fazia parte de um projeto estratégico do governo imperial. O objetivo era duplo: garantir soldados para defender a região Sul e atrair mão de obra qualificada. “Os alemães atendiam a essas duas demandas por serem exímios soldados, com grande tradição militarista, e por serem grandes artesãos, qualificados e alfabetizados”, explica.
Desenvolvimento da colônia
Inicialmente, os colonos foram instalados em uma área que antes pertencia à Real Feitoria do Linho Cânhamo, atual Casa do Imigrante. O primeiro núcleo cresceu e, em 1846, tornou-se uma vila emancipada de Porto Alegre. O desenvolvimento foi impulsionado pela construção da primeira estrada de ferro do Rio Grande do Sul, em 1874. As antigas oficinas de sapateiros e ferreiros deram origem a sobrenomes que se transformaram em gigantes industriais, como Gerdau, Renner e Stihl.
Para Michel Ramos, esse “espírito empreendedor alemão” consolidou a cidade como motor de desenvolvimento para o estado. “Os imigrantes nos deixaram o legado da fé e do trabalho. A certeza de que o trabalho bem feito, com determinação e união, dá resultado”, completa.
Relíquia preservada
A herança dos pioneiros é preservada no Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, onde Michel trabalha. No acervo, guarda-se uma relíquia: uma Bíblia trazida pelos primeiros colonos, escrita em alemão gótico, datada de 1765. “A Bíblia já era antiga quando eles vieram. A gente não sabe quem trouxe, mas com certeza em 1824 já não seria mais nova. Eles tinham tanta coisa para trazer, porque iam embora para não voltar mais, e daí traziam uma Bíblia deste tamanho. Não é uma bíblia qualquer”, comenta Ingrid Marxen, diretora de relações institucionais do museu.
O item, que resistiu a mais de 260 anos, quase ficou submerso durante a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. Graças à ação rápida de uma funcionária, a Bíblia que carrega o vínculo da cidade com a história da imigração alemã no Brasil foi salva. “Choveu, sim, mas não tínhamos ideia de que poderia ser tão sério. Quando estávamos fechando, nossa funcionária lembrou da Bíblia. Ela voltou, a pegou e a levou para um lugar seguro”, recorda Ingrid.
Michel afirma que a Bíblia é o item mais antigo do museu atualmente em exposição. O objeto, que representa a fé dos pioneiros que atravessaram o continente, era indispensável nos cultos da comunidade na época.



