Aline Bei discute escrita sem rótulos e personagens femininas na Bienal do Livro Bahia
Dona de uma escrita que flerta com a poesia mesmo quando assume a forma de romance, Aline Bei tem obras marcadas pela mistura de gêneros e pela construção de personagens densos e introspectivos. Seu livro mais recente, "Uma Delicada Coleção de Ausências" (2025), aborda temas como maternidade, infância, individualidades, traumas e mágoas com uma profundidade que tem chamado atenção no cenário literário brasileiro.
Participação na Bienal do Livro Bahia
A escritora foi uma das atrações da Bienal do Livro Bahia, no domingo (19), participando da mesa "Evocar memórias, recriar mundos: do que é feita a literatura" ao lado da autora Andréa del Fuego. O evento literário acontece até a terça-feira (21), no Centro de Convenções Salvador, na Boca do Rio, reunindo milhares de amantes da literatura em uma programação diversificada.
Uma escrita que transita entre gêneros
Em entrevista exclusiva, Aline Bei comentou sobre as características distintivas de sua produção literária. Segundo ela, a percepção de que seus textos não se encaixavam em categorias tradicionais surgiu ainda no início da carreira, durante sua graduação em Letras na Pontifícia Universidade Católica (PUC).
"Gostavam do que eu escrevia, mas diziam que eu não cabia em um gênero específico", revelou a autora, lembrando que inicialmente suas produções eram inseridas na seção de poesia de uma revista acadêmica, mas passaram a receber comentários de leitores que não as reconheciam como integrantes do gênero. A mesma reação se repetiu quando migrou para a seção de contos.
A partir dessas experiências, Bei passou a compreender sua inclinação natural para transitar entre os gêneros literários. "Comecei a absorver essa vocação natural que eu tinha para a fronteira, e isso foi se transformando, em alguma medida, no meu trabalho", explicou a escritora, destacando como essa característica se tornou uma marca registrada de sua produção.
A construção de personagens femininas complexas
Outro ponto destacado por Aline Bei foi a construção cuidadosa de personagens, especialmente mulheres atravessadas por conflitos internos e silenciosos. Questionada sobre seu processo criativo, a autora ressaltou o aprofundamento gradual nas camadas psicológicas que caracteriza seu trabalho.
"São muitos anos escrevendo. Eu mergulho em uma espécie de espessura do personagem e vou adentrando camadas que, às vezes, para elas também estão escondidas, mas que a história revela como uma potência", disse a escritora, descrevendo sua abordagem meticulosa para desenvolver personagens femininos ricos e multifacetados.
A autora também relaciona o silêncio presente em suas personagens a traumas de origem geracional, que nem sempre encontram expressão imediata. "Essas mulheres vão tentando dar contorno para isso, não serem definidas por isso, mas, de certa forma, o livro vai falar justamente desses abandonos", concluiu Bei, explicando como temas como ausência e trauma permeiam sua obra mais recente.
A Bienal do Livro Bahia 2026
Com o tema "Bahia: identidade que ecoa nos quatro cantos do mundo", a Bienal do Livro Bahia 2026 conta com a presença de escritores renomados como Julia Quinn, Paula Pimenta, Ailton Krenak e Thalita Rebouças, entre outros nomes importantes do cenário literário nacional e internacional.
Neste ano, o evento ganhou uma data extra em relação à edição anterior, com a expectativa da organização de reunir mais de 120 mil visitantes em sete dias - superando o recorde de 2024, que recebeu 100 mil pessoas. A classificação etária do evento é de 14 anos, permitindo que menores dessa idade participem desde que estejam acompanhados pelos pais ou responsáveis legais.
A programação da Bienal inclui mesas de debate, sessões de autógrafos, lançamentos de livros e diversas atividades culturais que celebram a literatura baiana e brasileira, consolidando Salvador como um importante polo literário no cenário nacional.



