Remake de 'O Beijo da Mulher Aranha' com Jennifer Lopez falha em crítica
Remake com J.Lo falha ao diluir política do clássico

Quarenta anos após o aclamado filme de Hector Babenco, "O Beijo da Mulher Aranha" retorna às telas em uma versão musical estrelada por Jennifer Lopez. No entanto, a nova produção, que chegou aos cinemas em janeiro de 2026, está longe de repetir o sucesso crítico do original. A trama política e ácida deu lugar a um romance "açucarado", segundo análises, sabotando a essência do clássico e enfrentando uma recepção fria do público e da crítica especializada.

Da cela política ao musical: uma mudança de tom radical

A premissa central permanece: em uma prisão de um país latino-americano sob uma ditadura cruel, dois detentos desenvolvem uma relação improvável. Valentin, um preso político, e Molina, um homossexual condenado por indecência, encontram escape nas histórias de filmes melodramáticos contadas por Molina. Sua narrativa favorita envolve uma misteriosa mulher e uma teia cintilante.

A grande mudança, contudo, está na figura que protagoniza essa fantasia. No lugar da icônica Sonia Braga, que estrelou o filme de 1985, agora está a popstar americana Jennifer Lopez, de 56 anos. A produção, baseada no espetáculo da Broadway de 1993, é um musical com números exuberantes de canto e dança, dirigido por Bill Condon na estética da velha Hollywood.

O que se perdeu na nova versão?

A história nasceu do livro de 1976 do argentino Manuel Puig, misturando fascínio pela cultura pop com uma dura denúncia às ditaduras latino-americanas apoiadas pelos Estados Unidos. Hector Babenco, um cineasta argentino-brasileiro, capturou essas nuances com maestria. Seu filme, uma coprodução filmada em São Paulo, foi indicado a quatro Oscars e garantiu a estatueta de Melhor Ator para William Hurt, intérprete de Molina.

Já o remake musical, produzido pela própria Jennifer Lopez junto com seu ex-marido Ben Affleck e outros parceiros, não conseguiu replicar o mesmo impacto. A bilheteria permaneceu abaixo dos 2 milhões de dólares e a produção foi ignorada nas indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de 2026.

A crítica aponta que a abordagem do diretor Bill Condon suavizou a acidez da obra. Cenas consideradas artificiais e um final que prioriza o idílio romântico em detrimento da tragédia e da metáfora política são os principais pontos de descontentamento. Em entrevista à Variety, a própria Lopez resumiu a mensagem de sua versão: "o amor cura todas as divisões". Uma visão que, para muitos fãs do original, dilui completamente o veneno crítico da aranha.

Um legado difícil de igualar

O filme de Babenco não foi apenas um sucesso de crítica; ele se tornou um marco do cinema brasileiro e latino-americano, com atuações históricas de Sonia Braga e Raul Julia. Anos depois, em 1993, a adaptação para os palcos da Broadway, estrelada por Chita Rivera, foi coroada como o musical do ano no Tony Awards.

O remake de 2026, portanto, carrega um peso enorme. A tentativa de Jennifer Lopez de revitalizar sua carreira com um papel clássico esbarrou na dificuldade de traduzir para um formato musical a complexidade política e emocional da obra original. Para o público que guarda na memória a performance visceral de Sonia Braga, a versão "açucarada" de Lopez se mostra difícil de engolir, provando que algumas magias do cinema são, de fato, únicas.