Polêmica no Festival de Berlim divide artistas sobre papel político da arte
O Festival Internacional de Cinema de Berlim, que começou na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, tem gerado intenso debate muito mais pelas declarações de seus participantes do que pelos filmes apresentados. A onda de controvérsias teve início quando o renomado cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri do evento, afirmou publicamente que diretores "têm que ficar longe da política".
Posicionamento oficial do festival gera mais controvérsia
Neste domingo, 15 de fevereiro, o festival publicou um comunicado oficial em defesa das declarações de Wenders, posicionando-se na contramão das fortes críticas que têm recebido. Tricia Tuttle, diretora do festival, afirmou categoricamente que "artistas podem exercer a liberdade de expressão da forma que quiserem". Segundo ela, não é dever dos cineastas "comentar todos os debates mais amplos sobre as práticas anteriores ou atuais de um festival que não controlam, tampouco devem se pronunciar sobre toda questão política erguida perante eles, a não ser que queiram".
Outro porta-voz do festival argumentou que as polêmicas advêm de coletivas de imprensa tiradas de contexto e indiferentes à obra completa e aos valores dos artistas citados. Esta posição institucional acabou por acirrar ainda mais os ânimos no ambiente cultural do evento.
Desistência de importante escritora marca protesto
Na sexta-feira, 13 de fevereiro, a consagrada escritora indiana Arundhati Roy cancelou sua participação no festival em protesto contra colegas que esquivaram posicionamentos sobre questões políticas sensíveis, incluindo a questão palestina e o governo Trump. "Ouvi-los dizer que a arte não deve ser política é de cair o queixo", declarou a intelectual que se opõe ao Estado de Israel.
Roy foi enfática em sua crítica: "É um jeito de anular conversas sobre um crime contra a humanidade ainda que ele aconteça em frente aos nossos olhos em tempo real — sendo que artistas, escritores e cineastas deveriam estar fazendo tudo que podem para acabar com isso". Sua desistência representou um marco significativo na polarização que tomou conta do festival.
Outros artistas adotam postura similar à de Wenders
Para além de Wim Wenders, outras figuras importantes do cinema internacional adotaram postura similar. O ator Rupert Grint, mundialmente conhecido pela saga Harry Potter, quando questionado sobre "a ascensão do fascismo", limitou-se a dizer que é "obviamente contra", mas que só comentará a questão a fundo no futuro.
Já a aclamada atriz chinesa Michelle Yeoh recusou-se a analisar o cenário político americano, declarando apenas que "é melhor não falar sobre o que não conhece". Estas declarações reforçam a divisão entre artistas que defendem uma arte apolítica e aqueles que acreditam no engajamento político como parte fundamental da expressão artística.
Festival segue com programação diversificada
O Festival de Berlim continua até o próximo domingo, dia 22 de fevereiro, mantendo sua programação cinematográfica apesar das polêmicas. Entre as produções em exibição, destaca-se o filme Rosebush Pruning do cineasta brasileiro Karim Aïnouz, uma sátira do declínio de uma família rica na Itália que conta com astros hollywoodianos como Elle Fanning e Callum Turner.
O debate sobre o papel político da arte promete continuar reverberando muito além do término do festival, colocando em evidência questões fundamentais sobre liberdade de expressão, responsabilidade social dos artistas e os limites entre criação artística e ativismo político no cenário cultural contemporâneo.