Assayas traz visão surpreendente sobre poder russo em novo filme
O cineasta francês Olivier Assayas, conhecido por suas abordagens inesperadas sobre temas complexos como a decadência europeia e o terrorismo internacional, agora volta sua lente para a figura de Vladimir Putin em "O Mago do Kremlin". O filme, que estreia nos cinemas brasileiros em 9 de abril de 2026, promete uma análise cinematográfica única sobre a ascensão do líder russo ao poder absoluto.
O verdadeiro mago não é Putin
Contrariando expectativas iniciais, o personagem central não é o presidente russo interpretado por Jude Law, mas sim Vadim Baranov, vivido por Paul Dano. Este conselheiro fictício, baseado possivelmente na figura real de Vladislav Surkov, narra sua trajetória para o autor estadunidense Rowland, interpretado por Jeffrey Weight.
Baranov começa como diretor de teatro vanguardista durante a desmontagem da União Soviética, migra para a televisão e finalmente chega à política através de sua aproximação com o oligarca Boris Berezovski. Este, que enriqueceu durante o governo de Boris Yeltsin através da compra de bens públicos a preços irrisórios, controlava a televisão russa e decidiu que Yeltsin já não servia mais aos seus projetos de poder.
A articulação do poder vertical
Junto com Baranov, Berezovski articula a ascensão de um substituto: Vladimir Putin, então chefe da espionagem russa, visto inicialmente como um possível fantoche manipulável. A proposta de Baranov ao futuro presidente foi simples e poderosa: a Rússia precisava de um poder vertical, um líder único que colocasse ordem na casa e mandasse em tudo.
"Putin adorou a ideia", revela a narrativa do filme, que então descreve a tomada do poder pelo líder russo com o apoio fundamental de seu conselheiro criativo. O que se segue é um retrato implacável de um governante com métodos nunca delicados, disposto a tudo para afastar rivais e consolidar seu controle absoluto.
Putin: enigma persistente
Assayas evita julgamentos simplistas sobre o presidente russo, diferentemente da visão predominante na Europa. Em vez de retratá-lo como vilão ou inimigo, "O Mago do Kremlin" dedica-se a mostrar o que Putin representa: um líder que funciona dentro de uma tradição russa de poder concentrado que remonta aos czares e persistiu através da era soviética.
O filme deixa em aberto questões fundamentais sobre a natureza do poder de Putin: seria ele um político de extrema-direita, um neocomunista ou simplesmente um nacionalista pragmático? O que fica claro é que Putin não é retratado como alguém manipulável, mas sim como um estrategista que enfrenta oligarcas com a mesma determinação que os czares históricos enfrentavam senhores feudais.
O destino dos oligarcas e o mistério de Baranov
A narrativa mostra como Putin retomou o controle de companhias estratégicas de petróleo e gás, colocando-as nas mãos de aliados completamente leais. Enquanto isso, os oligarcas que antes o apoiavam enfrentam destinos diversos: um termina exilado antes de supostamente se suicidar, outro é preso, outros morrem em circunstâncias misteriosas e suspeitas.
O próprio Baranov, o mago do título, permanece um personagem enigmático. O filme não esclarece completamente por que ele decide se retirar do governo em determinado momento, nem por que resolve contar sua história a um autor americano. Sua explicação de que tanto seu avô quanto seu pai tiveram a vida tragada pela Rússia levanta questões sobre se essa seria uma característica tão russa quanto a convivência com um poder vertical.
A arte da contenção cinematográfica
O roteiro, escrito pelo próprio Assayas em colaboração com Emmanuel Carrère (filho de uma importante sovietóloga francesa), destaca-se pela arte da contenção. O filme não preenche todos os espaços narrativos, deixando vazios onde o espectador pode formar sua própria imagem dos personagens, especialmente de Putin.
Essa abordagem permite interpretações diversas: pode-se ver Putin como salvador da pátria ou como tirano implacável. Mas talvez, como sugere o filme, o que ele mais deseje seja ser temido - e é exatamente isso que a Europa parece fazer em tempo integral diante de seu governo.
Com classificação indicativa de 16 anos e elenco estelar, "O Mago do Kremlin" oferece não apenas um retrato fascinante do poder russo contemporâneo, mas também uma reflexão cinematográfica sofisticada sobre as naturezas do autoritarismo e da construção narrativa do poder político.



